QpQ Resenha | Um Estranho no Lago

"Um Estranho no Lago" traz uma história complexa e com diferentes possíveis leituras

Apesar de parecer simples – ou até extremamente simples – na superfície, Um Estranho no Lago traz uma história complexa e com diversos elementos que se desdobram em infinitas possibilidades de leitura.

Dirigido e escrito por Alain Guiraudie, que recebeu um prêmio em Cannes por esta obra, o filme francês Um Estranho no Lago é bem isso: a história de estranhos que se encontram ao redor de um lago. Que se encontram para fazer sexo. Que se encontram para fazer sexo, ao redor de um lago, todos os dias, durante o verão. Mas aí que tá. Como eles não se conhecem, e todo dia é um novo dia em suas vidas de relacionamentos descompromissados de verão, será que não é bem isso que eles gostariam que pensássemos? Que é a história se reduz a isso e pronto? Pra não dar bandeira. Pra não precisarem se explicar. Pra depois voltarem às suas rotinas e fingir que nada daquilo realmente aconteceu?

E é por isso que este thriller psicológico, que à primeira vista parece um romance – atravessando as barreiras para um pornô, às vezes – é incrível. E olha, o diretor bem que tentou camuflar todos os seus aspectos mais profundos, assim como os personagens tentam camuflar suas vidas. O filme se passa inteiramente à beira de um lago. Os mesmos três ou quatro pontos de vista da região (o lago, a mata, o estacionamento, a beira do lago) se repetem ao longo do filme. Os personagens ocupam os mesmos locais, estacionam os carros nos mesmos pontos, chegam e saem com seus carros sempre de maneira semelhante. Mas e quem são eles? De onde vem? O que fazem fora dali? Ninguém sabe. E se sabe, não comenta. E isso dificulta ainda mais a vida de um detetive, que tem que investigar a morte de um dos “habitantes” deste microcosmo.

A história gira em torno de Franck (Pierre Deladonchamps), que testemunha Michel (Christophe Paou) afogar no lago um rapaz com quem estava envolvido. Mesmo assim, Franck tem um envolvimento sexual com Michel, enquanto mantém uma amizade com Henri (Patrick d’Assumçao), que só vai até o lago para observar. Nas idas e vindas destes personagens, suas aventuras sexuais no meio da mata – tudo bem relatado, com em uma boa história, com muitas cenas cândidas de sexo explícito – , conseguimos perceber algumas coisas sobre suas personalidades. E assim, tentamos entender suas razões para estarem ali, ou até compreender porque se sentem seguros neste microcosmo, como se nenhum mal pudesse atingi-los. E talvez perdoá-los por serem tão egoístas e continuarem a viver suas vidas no lago, da mesma forma que sempre fizeram, mesmo depois de descobrirem que um homem foi morto ali.

Nota:

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Sobre Melissa Correa
Cinema sempre foi minha maior paixão, sempre fez parte de quem eu sou. Quando criança, eu levantava pra ver filmes de terror de madrugada, escondida. Ficava até três da matina (bendito fuso horário de Los Angeles!!) pra acompanhar o Oscar. E salvava cada centavinho pra ver os filmes no cinema. Hoje também curto viajar, beber café e ler, mas o cinema continua em primeiro lugar na minha vida.