QpQ Resenha | Dois Dias, Uma Noite

"Dois Dias, Uma Noite" e a posição deliciosamente desconfortável de prestar atenção no outro

Como lidar em tempos de crise com a perda de um emprego? Uma mãe que provê metade da renda de uma família, com duas crianças, em tratamento de uma depressão, está preparada para ser uma carta descartada no, muitas vezes cruel, mundo corporativo? Em “Dois Dias, uma Noite” (Deux Jours Une Nuit, 2014), o mais recente filme dos irmãos Dardenne, o contexto da crise na Europa serve como pano de fundo para um recorte simples do cotidiano de pessoas, que acabam sendo sabotadas por um sistema que finge não existirem as leis trabalhistas.

Em algum ponto da Bélgica Sandra se recupera de uma depressão que a afastou do emprego. Ao receber uma ligação de uma colega de trabalho descobre que a empresa não pretende que ela seja devolvida à função e para isso criou uma situação entre o restante dos funcionários da equipe. Oferecendo um bônus no salário a empresa deixa nas mãos dos funcionários a decisão se Sandra fica ou vai embora deixando mil euros de bonificação para cada um dos colegas. A jovem mulher precisa do emprego e os colegas têm muitos motivos para quererem o dinheiro do bônus. Como lidar com esse tipo de situação?

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“Dois Dias, uma Noite” é o período que Sandra tem para convencer os dezesseis colegas de trabalho que ela necessita do emprego. Não é uma peregrinação tranquila, e o espectador se vê muitas vezes incomodado com a mulher tocando campainhas e explicando para pessoas a situação que nem sempre – ou praticamente nunca – quer ser ouvida pelo outro. Os irmãos Dardenne se mostram cientes da crise que a Europa passa nos últimos anos e criam uma situação de alteridade até mesmo forçando sentimentos no espectadores.

A questão do outro, como a alteridade funciona numa sociedade em que não mede como um sistema funciona, apenas mede como cada pessoa pode ou não se dar bem. O incômodo de observar de perto o individualismo do outro é o que confronta quem está assistindo. Sandra sempre se desculpa para os colegas ao explicar por que está ali, colocando-se em papel de culpa e adiantando que entende que está pedindo demais para que abdiquem de seus adicionais no salário. Será mesmo que o outro não importa em um sistema? As pessoas trabalham sozinhas? E se acontecesse com você? Tente não se manter fazendo essas perguntas.

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A concepção do filme é simples e a intenção é realmente um recorte de cotidiano aparentemente banal porém cruel quando visto de perto. Algumas ressalvas são alguns pontos do roteiro tratados com um tom de absurdo ou mesmo pressa de resolução de conflitos, mas nada que comprometa o bom andamento do filme que além de tratar de uma situação latente e atual, nos coloca na posição deliciosamente desconfortável de prestar atenção no outro.

Nota:

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Sobre Emanuela Siqueira
Formação em Letras mas é multitask por opção. Cinema, Literatura, Feminismo, Cultura Livre, Música barulhenta, Quadrinhos e Tradução definem um pouco. Tem fé em Darren Aronofsky e acredita em vida atrás das telas.