QpQ Resenha | O Cidadão do Ano

"O Cidadão do Ano" traz vingança e o ótimo humor negro nórdico

O começo de inverno no hemisfério sul é um bom contexto para a estreia do longa norueguês “O Cidadão do Ano” (Kraftidioten, 2014), de Hans Petter Molland. Depois de passar por festivais importantes e de ter uma estreia mundial há mais de um ano, o filme finalmente chega aos cinemas brasileiros – provavelmente em circuito alternativo – trazendo uma pegada muito próxima do argentino “Relatos Selvagens”, em um ambiente mais nórdico e de ação.

Nils é o que pode se chamar de um bom homem, vive em Beitostølen na Noruega, é casado, tem um filho na universidade e acaba de ganhar o título de “cidadão do ano” pelos serviços prestados em sua empresa que retira neve das estradas e de outros ambientes contratados. No mesmo dia em que Nils ganha o título honorário da região, recebe também a notícia que seu filho foi encontrado morto em uma estação, aparentemente de overdose. Nils não acredita que seu filho fosse usuário de drogas e com essa certeza empreende um projeto de vingança contra os causadores da sua dor.

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A neve é um empecilho sério nessa região da Noruega, apesar da romantização do inverno que temos nesse lado tropical do planeta, a neve, o frio e a impossibilidade de locomoção são assuntos sérios em países nórdicos. Nils realmente faz um excelente trabalho retirando esse obstáculo do cotidiano dos moradores da região, então por que não limpar um pouco mais a sociedade local? Descobrindo que seu filho morreu por conta de uma manobra de um traficante de cocaína – deixando bem claro que uma pessoa mais uma a menos não faz diferença, contanto que os negócios continuem funcionando – Nils decide agir por conta, principalmente quando a polícia dá as costas para a morte do seu filho, relegando ele a uma grande lista de jovens envolvidos com drogas.

O clima gelado nórdico facilita para que o humor negro se desenvolva. Os nomes dos capangas e até mesmo o poderoso chefão do tráfico, são hilários, ácidos e executam um corte fino. Você se pega rindo de forma curiosa, ora pela caricatura dos supostos vilões do filme, que escondem suas naturezas atrás de ternos e carros importados, ora ao ver a falta de profissionalismo de Nils – e ao mesmo tempo eficiência – em matar homens que normalmente seriam temidos, afinal pouco importa pra ele as posições dos caras, ele só quer vingança.

A fina ironia de “O cidadão do Ano” fica bem explícito em seu título original de “Kraftidioten”, algo como “grande idiota” que define bem como as forças de poder são vazias e sem sentido. Homens poderosos, vistosos em ternos engomados, são apenas personas mal construídas e em boa parte do tempo cegas por suas posições, não sabendo ir além do papel designado dentro da lógica do serviço e acabam invarialvelmente vítimas de um homem comum, em busca de uma justiça feita pelas próprias mãos.

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Hans Petter Molland tem um estilo bem pÅ•oximo dos tempos mais áureos dos irmãos Coen, sendo inevitável relacionar “O Cidadão do Ano” com o clássico “Fargo” onde sangue e mortes são elementos colocados de forma simplória, funcionando muito bem em cena como dispositivos de comédia. O roteiro de Fim Fupz Aakeson é bem resolvido, principalmente na forma que cria laços do espectador com Nils, aqui interpretado por Stellan SkarsgÃ¥rd – que tem uma longa carreira no cinema americano – dono de uma expressão única, que parece não esboçar nenhum tipo de sentimento ou simplesmente executar expressões dignas de um exterminador do futuro, uma máquina de morte. Vale ainda ressaltar a trilha sonora do longa que ambienta o bucólico frio com cenas de ação misturados a elementos de música clássica.

Logo no começo associei “O Cidadão do Ano” com o argentino “Relatos Selvagens” porque acredito que ambos os filmes desenvolvem muito bem a relação de um universo ficcional esperado de um filme e a vida comum fora das telas. Apesar da ação proposta em “O Cidadão do Ano”, o filme consegue se desvincular de uma certa escola do gênero, arrancando risadas macabras do espectador e questionamentos mais profundos sobre até onde somos capazes de chegar quando nos encontramos em uma situação injusta.

Nota:

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Sobre Emanuela Siqueira
Formação em Letras mas é multitask por opção. Cinema, Literatura, Feminismo, Cultura Livre, Música barulhenta, Quadrinhos e Tradução definem um pouco. Tem fé em Darren Aronofsky e acredita em vida atrás das telas.