QpQ Resenha | Não Seja Mau

"Não Seja Mau" não é um filme fácil de se assistir, pode não deixar uma ótima impressão, mas ele cresce em você, e fica melhor com o passar dos dias

A 8½ Festa do Cinema Italiano está com tudo, e tem filme para todos os gostos. Inclusive aqueles que podem ser meio indigestos, desagradáveis, do tipo que você sai do cinema odiando, mas aí vai gostando cada vez mais conforme as horas, os dias, as semanas passam. O mesmo amigo que te perguntou se você tinha gostado do filme logo após a sessão, e depois checa com você alguns dias depois, vai receber duas respostas diferentes. Porque o filme cresce em você. Sabe? É, Não Seja Mau, último filme do diretor Claudio Caligari (que faleceu logo após a edição ser finalizada), que fecha sua trilogia temática (composta por Amore Tossico, de 1983, e L’odore Della Notte, de 1998), candidato italiano ao Oscar 2016, é assim. De cara você fica impressionado com a ficha do filme, assiste, acho o filme uma completa porcaria, mas, de repente, a ficha cai.

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Mas por que o filme provoca uma primeira impressão ruim? Ele é muito cru, muito real, muito soca na boca do estômago. É um filme sobre dois amigos, Vittorio (Alessandro Borghi) e Cesare (Luca Marinelli), e sua vida de merda. Sem esperança, sem perspectiva. Eles moram em uma cidadezinha nos subúrbios de Roma, na década de 1990. São amigos desde a infância, são como irmãos. Estão afundados nas drogas até o último fio de cabelo. A irmã de Cesare morreu de Aids, a sobrinha está indo pelo mesmo caminho. E quando Vittorio conhece Linda, ele vê uma possibilidade de sair daquela vida, e coloca todas as suas esperanças naquele amor. Enquanto isso, Cesare afunda cada vez mais sem o amigo.

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Filmes assim não nos assustam. Brasileiros estão acostumados a esta “realidade” nua e crua. Não? Tenho minhas dúvidas. Cidade de Deus, apesar de ser bem duro e real, dá uma sensação de conforto pela distância que o filme constrói por causa da edição. Edição linda de filme de ação, com cortes rápidos, cenas aceleradas, trilha sonora incrível. Mas tudo isso está ausente em Não seja mau. As incríveis cenas de perseguição estão ausentes. A trilha sonora é quase inexistente, e quando é usada, parece deslocada, perdida, assim como Vittorio e Cesare. E não é bem o que eu esperaria de um filme europeu, italiano. Não é tudo tão lindo e maravilhoso por lá? Cheio de luz, e esperança e jantares regados a vinho, com gente bonita e bem vestida? O lugar é feio pra dedéu – nem a paisagem litorânea consegue amenizar a feiura do lugar -, as pessoas parecem mais velhas do que a idade que tem, estão cansadas, e não têm nada em que se segurar, nenhuma esperança. Que desgraça! E o pior? Nem consegui simpatizar com os personagens. Os dois despertam raiva, não dá nem pra sentir pena deles.

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Mas e aí, por que o filme fica melhor depois? Ele te faz pensar um bocado sobre a história, e a maneira como ela é construída e apresentada. E faz pensar em como normalmente o cinema manipula a gente, faz você sentir isso e aquilo, dependendo da música, do corte, da atuação. E quando esses recursos não estão lá, e a história é difícil de engolir, e você odeia os caras lá, porque eles parecem nem estar atuando, parecem estar vivendo aquela porcaria daquela vida. Ah, aí que tá. O que sobra? Sobra vida real, e ela pode ser bem difícil de digerir, às vezes.

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E como vou concluir e dar uma nota pra esse filme? Vou fechar dizendo que você deve ver Não seja mau, sem dúvida alguma. Se você vai gostar, odiar, amar? Ah, sei lá. Vai depender de você, ou não. Mas pelo menos dá essa chance pra este incrível filme do cinema italiano. Não é nenhum La Dolce Vita, já vou avisando. Mas pode te surpreender com outro tipo de beleza.

Nota:

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Sobre Melissa Correa
Cinema sempre foi minha maior paixão, sempre fez parte de quem eu sou. Quando criança, eu levantava pra ver filmes de terror de madrugada, escondida. Ficava até três da matina (bendito fuso horário de Los Angeles!!) pra acompanhar o Oscar. E salvava cada centavinho pra ver os filmes no cinema. Hoje também curto viajar, beber café e ler, mas o cinema continua em primeiro lugar na minha vida.