QpQ Resenha | American Horror Story: Roanoke

"American Horror Story" se arrisca ao fazer uma temporada corajosa e pronta para se desprender da antiga fórmula da série com "Roanoke"

Em 2011, o canal FX mudou o jeito de contar histórias com a chegada da série American Horror Story. Criada por Brad Falchuk e Ryan Murphy, a dupla usou sua bagagem de séries de sucesso como Nip/Tuck e Glee para fazer uma antologia inovadora sobre contos de horror baseados na cultura norte-americana. Com extremo apelo sexual e liberdade de criação, o programa ficou fadado a gerar polêmicas e construir imagens fortes que poderiam entrar para a história da cultura pop, como a criatura de roupa de látex e as freiras do asilo. Depois de escorregar na própria fórmula e perder Jessica Lange, sua protagonista mais valiosa, a produção tentou encontrar em Sarah Paulson, a base de uma boa atriz para a série se segurar e em Lady Gaga um elemento de popularidade que chamasse de volta os telespectadores, o que resultou numa história sem coesão e uma quinta temporada perdida no esquecimento. Após a tentativa, American Horror Story volta para a sexta temporada com a intenção de se reinventar no gênero do horror e deixar claro que tudo será diferente a partir de agora.

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Com muito mistério na divulgação, o tema que retrata a colônia perdida de Roanoke, foi mantido em segredo até o primeiro episódio estrear. Situada na Carolina do Norte, o lugar é conhecido pelo desaparecimento de todos os habitantes vindos da Inglaterra. A trama aproveitou as lendas ao redor desse acontecimento e montou uma história ficcional do casal Shelby (Lily Rabe) e Matt (André Holland), que se mudam para um casarão abandonado justo nessa região dos desaparecimentos e logo recebem também a visita de Lee (Adina Porter) a irmã de Matt, que ganha importância e presença inesperada no roteiro. A partir daí, já se imagina o que pode acontecer. Antigos espíritos da casa surgem a noite e fazem um jogo sangrento com os três, assim como as almas dos próprios colonos que demandam a saída deles da casa recém comprada. Mesmo parecendo clichê e familiar do universo da série, a preocupação dos episódios é causar medo ao assistir sozinho. E é aí que American Horror Story ganha.

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Em uma abordagem inusitada, Roanoke cria um documentário sobre todo o horror que houve no lugar no período da lua sangrenta e intercala os depoimentos reais com a encenação com atores que reconstituem os ataques. Mas no sexto episódio há uma reviravolta que muda toda a percepção do programa, que cria um spin-of dentro da série em formato de reality show e junta o elenco com as pessoas reais que eles interpretaram. Um pouco confuso ao explicar, mas na tela tudo é muito bem encaixado. Ao construir toda essa engrenagem inspirada em A Bruxa de Blair, é natural esperar as especulações e as repercussões do sucesso da série, como se fosse um desses casos que a gente vê na TV e que se repete o tempo todo por seu apelo popular e sangrento, quase como um Accesss Hollywood ou um E! True Hollywood Story.

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Na sua concepção mais pura, além de toda a trama que é uma das mais bem construídas até então, o foco da vez é causar medo ao assistir a série sozinho, esse aspecto é o maior atrativo para que todo o sangue não seja em vão. Os sustos são muito bem colocados e a iluminação intencionalmente escura e os amplos cômodos da casa rodeada de uma floresta, ganham um suspense a mais e uma sensação de não saber o que encontrar ao abrir uma porta. As corriqueiras cenas de explicação que percorrem esses 6 anos de American Horror Story não se repetem tanto nessa temporada e são muito mais contidas e objetivas, assim como o passado da entidade interpretada por Lady Gaga, que ganha uns minutinhos a mais só para não passar batida e também a ascensão da Açougueira (Kathy Bates), que inclusive chama atenção como a vilã mais insana da temporada e também tem Bates como a melhor atriz na entrega das nuances de duas personagens muito interessantes, algo que Sarah Paulson, por exemplo, não conseguiu quando se desvincula de Shelby e aparece como Audrey.

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Tratando de escândalos familiares com os olhares da mídia em cima de Lee, a única sobrevivente e a personagem com mais demônios a serem enterrados junto a lenda antiga americana da colônia perdida, Roanoke não poderia ser mais literal na ideia que iniciou todo o projeto de ser apelativa para a cultura americana, e mesmo assim, consegue agora se ver livre para contar todo tipo de história, sem se prender a tantas referências pop ou informações de moda para segurar um público misto e trabalhar melhor na boa narrativa de suspense e horror. Agora, os criadores tem a faca e o queijo na mão para esquecer os erros das temporadas passadas e juntar referências das mesmas em uma produção nova e corajosa para que American Horror Story dure mais anos sem se repetir.

Nota:

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Sobre Felipe Cavalcante
Formado em RTV, fã de boas músicas e boas histórias, sempre em busca de coisas novas e empolgantes. Obcecado por super-heróis e pela magia do impossível que se torna real nas telas da TV e do cinema.