QpQ Resenha | Neruda

"Neruda" mescla ficção e fatos reais em um episódio político na vida do grande poeta chileno Pablo Neruda

“Posso escrever os versos mais tristes essa noite.” E assim ficarão para sempre em nossa memória as palavras de Neruda, ditas por ele, por Gael García Bernal, por tantos neste filme delicado, que se traveste de apenas politicamente engajado, mas que no fundo quer contar mais uma história, demonstrar a força de uma narrativa, mesmo que essa seja em poesia.

Indicado ao Globo de Ouro 2017 pelo Chile, essa produção dirigida por Pablo Larraín (ganhador do Oscar por No) e escrita por Guillermo Calderón (O Clube) é uma viagem vibrante de cores, trilha, paisagens, mistério e poesia.

Um breve contexto dos acontecimentos. Estamos em 1948, ano em que o poeta chileno Ricardo Eliécer Neftalí Reyes, vulgo Pablo Neruda, é senador da República no governo do presidente Gabriel González Videla, que era membro do Partido Radical, uma facção mais extremista do comunismo. Neruda acreditava no comunismo utópico de Marx, o que daria uma vida digna a todos, que suprimiria o Estado, pois a sociedade controlaria a produção e a distribuição de bens e tudo seriam flores. Mas Videla fez como o ditado – quem nunca comeu mel, quando come, se lambuza –, impondo um governo autoritário, que censurava e punia todos que eram contra suas opiniões.

Neruda (Luis Gnecco) discorda veementemente desse governo e o presidente (Alfredo Castro) manda prenderem-no. Inicia-se então a perseguição pelo policial Oscar Peluchonneau (Bernal) do Neruda como figura política e subversiva. É dele a voz que vem narrando o filme, como se ele fosse o protagonista da história. Mas quem tem amigos tem tudo nessa vida e, assim, Neruda e sua mulher, Delia Del Carril (Mercedes Morán, de Diários de Motocicleta) encontram um paradeiro para se esconderem. À medida que o tempo passa, Neruda se torna inquieto por sua situação de cativeiro e arrisca dar umas saidinhas. Neruda e Oscar começam uma perseguição à la gato e rato, a qual é brilhantemente conduzida pelo diretor e respira ares do suspense noir, com seus figurinos impecáveis e sequências que lembram um sonho, uma ilusão.

Impressionante como Bernal tem um magnetismo sem igual. Não só o fato de ser tão bonito ou até mais do que quando começou a atuar, mas por estampar o cartaz de um filme cujo título leva o nome do grande poeta, que nem é interpretado por ele. De antagonista a protagonista, seu policial julga e questiona, tem insights narrativos, conclui pela própria plateia, ah que presunção!

Neruda como um todo é um grande suspense noir romântico, exaltando as palavras, a eloquência, sua articulação. A política é a estrutura, o ponto de partida para a narrativa, mas os sentimentos e a poesia são o grande coração da obra. Os momentos de humor possuem pérolas como a frase compartilhada por Delia e Neruda, “A higiene é um hábito burguês. Não limpar é um ato político”. Desafio você a não rir com as peripécias de Neruda e seus amigos, a não se envolver com a virada no final. Posso escrever os versos mais tristes essa noite. Mas não o farei!

Nota:

Please follow and like us:
Sobre Marcela Sachini
Libriana (portanto, indecisa), sou viciada em seriados (inclusive sul-coreanos), apaixonada por idiomas, música e literatura. Moraria em Notting Hill com toda a certeza, só esperando um convite do Henry Cavill para isso. Fui ao cinema pela primeira vez com 6 anos. Foi amor à primeira vista, desde então não parei mais.