QpQ Resenha | Marguerite & Julien

Incesto nunca foi mostrado tão de perto como em "Marguerite & Julien"

Os fãs de Valerie Donzelli (A Guerra Está Declarada) serão surpreendidos por Marguerite & Julien, seu experimento com o incesto. Um longa semi-histórico impulsionado única e exclusivamente pela paixão ao invés da razão, como a própria diretora diz que gosta de fazer.

Donzelli não está interessada em verossimilhança, e a produção mistura deliberadamente períodos históricos na direção de arte, figurinos e música (muita música!), com momentos modernos e meio fora de contexto. Mas o elemento mais interessante é a forma como o roteiro concebe a história de amor como uma espécie de conto de fadas contado para as crianças de um orfanato.

Desde a infância, há algo de antinatural no vínculo entre Marguerite (Anaïs Demoustier, de A Três Vamos Lá) e Julien (Jérémie Elkaïm, colaborador da diretora em A Guerra Está Declarada) e mesmo que não perceba, há uma série de cenas que mostram a tensão sexual que se desenvolve entre ambos. Finalmente, o tio de seu pai, o abade de Hambye, insiste que as crianças sejam separadas, e Julien e Philippe, outro irmão, são mandados para o internato. Quando eles finalmente retornam, anos depois, Marguerite é considerada uma velha encalhada por recusar todos os solteiros elegíveis na Normandia, querendo apenas estar perto do seu irmão.

A paixão inextinguível de Marguerite rompe a resistência inicial de Julien, para o horror da família, que não sabe muito bem como lidar com a situação. Seu pai e mãe casam-na com Lefebvre, um coletor de impostos com quem ela se recusa a consumar o casamento. Marguerite se torna assim prisioneira de um casamento do qual somente Julien poderá salvá-la, mas no processo, a relação de amor entre ambos vai crescendo e fazendo nossa cabeça girar no processo.

Os personagens não são tão cativantes como nos demais trabalhos de Donzelli, e enquanto a diretora faz um conto de fadas estranho e cheio de complicações há uma certa aura de inventividade na forma como a coisa toda é mostrada. Há uma influência latente na forma como os contos de fadas são trazidos para a tela, mas essas estilizações são realmente necessárias em um longa que trata sobre incesto?

Incesto é um tema complicado mas que perde um pouco da estranheza da situação graças às estranhezas do formato escolhido pela diretora para contar esta história. Truffaut dirigiria esse material e não conseguimos deixar de pensar no que faria com ele. Com certeza seria algo ainda mais bizarro de acompanhar!

Nota:


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Sobre Felipe Sclengmann
Era praticamente impossí­vel que o cinema não acabasse sendo minha paixão. Cresci no prédio onde um cinema funcionava, criado por um avô e uma avó que se conheceram trabalhando no ramo. Então, tá explicado! Falar sobre cinema é um hobbie, uma paixão, tá no meu sangue! Este é o motivo do Quadro por Quadro existir (além de aplicar os conhecimentos de uma graduação em Sistemas de Informação, a qual detesto) e ele está aí para reunir quem também ama esta arte.