QpQ Resenha | Nojoom, 10 Anos, Divorciada

"Nojoom, 10 Anos, Divorciada" é um filme importante e merece ser visto

Mulheres não tem uma vida fácil em sociedades machistas (vide a nossa). E algumas podem sofrer já muito novas, como a pequena Nojoom, de 10 anos, que foi obrigada pelo pai a se casar, mas lutou como pôde para se separar, também aos 10. Só de contar este pequeno resumo da história da personagem Nojoom Ali, baseada na história real de Nujood Ali, já parece muito surreal para ser verdade. Mas é, aconteceu e, infelizmente, ainda acontece em muitos lugares ao redor do globo, em pleno século 21. E por isso o filme Nojoom, 10 anos, Divorciada, da documentarista e escritora Khadija Al-Salami, que como Nojoom é nascida no Iêmen, foi obrigada a se casar aos 11 anos, foi estuprada pelo “marido” e devolvida para a família, é tão importante.

Com ares de documentário, mas bem estabelecido como um drama baseado em fatos reais (apesar de nunca afirmar ser baseado em fatos reais), a história segue a pequena Nojoom e sua coragem para lutar por seu divórcio, em uma idade que deveria estar apenas se preocupando com brincadeiras, protegida por uma família e tendo seus direitos assegurados. Mas como ter direitos em uma sociedade que objetifica a mulher e trata-a como mercadoria? E o filme dá muitos exemplos disso. Primeiramente, o pai de Nojoom a nomeia Nojood, que quer dizer “escondido” em árabe, quando descobre que nasceu mais uma menina, mas a garota se autodenomina Nojoom, que quer dizer “estrelas”. Depois, quando a irmã de Nojoom é estuprada, o pai vai reclamar com o xeique do vilarejo e ele propõe que o pai do rapaz que causou o “prejuízo” pague com gado e seja obrigado a casar com a moça. E quando o pai de Nojoom se vê em dificuldades financeiras, ele casa a menina, com a promessa de que o marido só vai consumar o casamento (ou seja, o cara de trinta e poucos anos vai transar com a menina de 10 anos) quando ela menstruar. Ah, você acreditou que ele ia esperar, né?

Khadija Al-Salami tenta passar da melhor maneira possível todas estas informações para nós com seu documentário. Infelizmente, ela tenta suavizar a coisa um pouco, explicando com seu enredo como nada disso é culpa dos pais, que vivem em condições horríveis, são obrigados a agir de certas maneiras por conta das tradições, da religião, das crendices, e que a culpa toda é da sociedade. E ela vai ir e vir tanto com explicações dos personagens, que apresentam suas explicações, versões e histórias, que o foco na história de Nojoom é perdido por muitos minutos, e você chega a sentir pena dos envolvidos. Até o lado do marido você tenta enxergar. Acho ótimo que a história seja mostrada de diversos ângulos, mas achei que a diretora forçou um pouco a barra e em certas cenas controla demais as emoções dos expectadores.

Fora o tema principal da história e sua mensagem, que eu espero que gere muita polêmica e levante discussões sobre o tema do casamento infantil, do dote, de casamentos arranjados, que nada mais são do que resultados de uma cultura machista que trata a mulher como propriedade do homem, o filme tem alguns outros aspectos muito interessantes. Eu não conhecia nada sobre o Iêmen, e depois de assistir ao filme já aprendi que a capital se chama Saná, conheci um pouco mais sobre sua geografia, costumes e tradições. E em uma das cenas mais fortes do filme, eu me senti um pouco culpada por admirar o excelente trabalho realizado no filme. Durante a festa de casamento de Nojoom, apesar de eu estar enojada por toda a situação, fiquei mesmerizada pela música e dança, e pelo incrível trabalho de edição do filme, que conseguiu ligar dois momentos muito diversos com maestria, ressaltando a crueldade do que estava acontecendo com a pequena Nojoom com cortes que iam da festa para a infeliz cena em que ela é estuprada pelo “marido”.

Vale a pena conferir o filme, falar sobre o filme, comentar com todo mundo para ver o filme e se informar sobre o assunto. Só assim vamos poder mudar a situação de muitas mulheres ao redor do mundo.

Nota:

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Sobre Melissa Correa
Cinema sempre foi minha maior paixão, sempre fez parte de quem eu sou. Quando criança, eu levantava pra ver filmes de terror de madrugada, escondida. Ficava até três da matina (bendito fuso horário de Los Angeles!!) pra acompanhar o Oscar. E salvava cada centavinho pra ver os filmes no cinema. Hoje também curto viajar, beber café e ler, mas o cinema continua em primeiro lugar na minha vida.