QpQ Resenha | Jackie

"Jackie" faz um retrato ousado e cheio de camadas da icônica primeira-dama

Jackie acompanha a recém-viúva Jacqueline Bouvier Kennedy através de um retrato ousado e cheio de camadas da primeira-dama mais icônica da história dos EUA.

O chileno Pablo Larraín (Neruda) deixa de lado a forma biográfica padrão a todo o momento. Ele constrói brilhantemente um estudo de personagem que observa uma Jacqueline Kennedy exausta, enquanto tenta entender sua própria perspectiva, seu próprio legado e – acima de tudo – sua própria dor em uma tragédia compartilhada por milhões.

No filme, Jacqueline Kennedy (Natalie Portman), inesperadamente viúva, lida com o trauma nos quatro dias posteriores ao assassinato de seu marido, o então presidente dos Estados Unidos John F. Kennedy.

Jackie se mostra um trabalho provocante e inteiramente insensível à voz especulativa que os pensamentos mais profundos de sua protagonista possui sobre casamento, fé e autoimagem. Tudo isso é coroado por um trabalho complexo e meticulosamente cheio de nuances de Natalie Portman (Cisne Negro) como a personagem do título.

Larraín, em seu primeiro trabalho em inglês, mostra o motivo de ser considerado um dos maiores cineastas da geração atual em seu país, comprovado com No e Neruda. As escolhas do diretor, juntamente com o compositor Mica Levi – que deu a Sob a Pele a estranheza que o filme precisava -, empurram o espectador persistentemente, mas sutilmente, rumo a uma zona de desconforto. Enquanto isso, Sebastián Sepúlveda edita o longa em fragmentos não-sequenciais, irregularmente desordenados, assim como são as memórias pós-traumáticas de qualquer pessoa.

Mas é o roteiro de Noah Oppeheim (A Série Divergente: Convergente) que toma as liberdades mais surpreendentes com a privacidade ferozmente protegida de Jackie. Até mesmo no seu momento mais emocionalmente conflitante, ela é retratada como uma mulher cujo controle de sua identidade nunca lhe escapa das mãos, alternando entre máscaras diferentes para suas aparições para a imprensa, público ou funcionários, ela só se despe dessas máscaras quando está verdadeiramente sozinha e estes são os momentos mais marcantes do longa que tem produção de Darren Aronofsky.

A forma desordenada como Jackie apresenta seus fatos e sentimentos é difícil de analisar. Para além de suas observações mordazes, às vezes incendiárias sobre a celebridade que Jacqueline Kennedy foi, o filme é também um relato profundamente perturbador sobre o sofrimento de uma pessoa em relação à perda de alguém que amou. Os sentimentos complicados de raiva, confusão e aceitação são mapeados no longa com uma espécie de caos controlado.

Pode ser que nem tudo que Jackie mostra seja verdade, como o próprio White pergunta durante uma entrevista: “quando algo está escrito, isso faz com que seja verdade?”. Não importa! Larraín faz um filme rico, desafiador e cheio de nuances sobre uma personalidade em seu sofrimento, que tem muito o que mostrar.

Nota:

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Sobre Felipe Sclengmann
Era praticamente impossí­vel que o cinema não acabasse sendo minha paixão. Cresci no prédio onde um cinema funcionava, criado por um avô e uma avó que se conheceram trabalhando no ramo. Então, tá explicado! Falar sobre cinema é um hobbie, uma paixão, tá no meu sangue! Este é o motivo do Quadro por Quadro existir (além de aplicar os conhecimentos de uma graduação em Sistemas de Informação, a qual detesto) e ele está aí para reunir quem também ama esta arte.