QpQ Resenha | O Filho de Joseph

Eugène Green tece uma fábula sobre um garoto que sai em busca do pai desconhecido

A bíblia é uma fonte de histórias que servem de inspiração para muitas esferas da arte, seja a própria literatura, a pintura ou mesmo o cinema. Neste próximo filme de Eugène Green a chegar às telonas, ela permeia toda a narrativa protagonizada pelo “filho de Joseph”.

O famigerado filho, Vincent (Victor Ezenfis), é um adolescente que vive apenas com a mãe, Marie (Natacha Régnier). Esta se recusa a falar o nome de seu pai ou dar qualquer informação a respeito. Consequentemente, Vincent vive revoltado, com uma carranca típica da idade em que tudo parece à flor da pele. Naturalmente, já que Maomé não vai à montanha, a montanha decide ir a Maomé.

Mas não é essa a analogia bíblica presente. Desde o início do filme, temos uma divisão em “capítulos” onde o tema principal é “O sacrifício de Abraão”: quando Abraão recebeu a mensagem de Deus para matar seu filho, Isaac. Outra manifestação desta história divina é a tela de Caravaggio, “O sacrifício de Isaac”. Ainda ocorre outro paralelismo no meio da história, mas para fins de surpresa, não contarei.

Vincent eventualmente descobre quem é o pai, Oscar Pormenor (Mathieu Amalric), um editor parisiense egoísta e seboso, que leva uma vida de aparências e se acha um gênio. Disfarçado sob a alcunha de Vincent Dumarais, Vincent passa a circular nos eventos do pai para conhecê-lo, mesmo que à distância, quase como um penetra, mas não gosta do que encontra. Porém, no meio de sua busca e desilusão com o pai biológico, o acaso faz Vincent conhecer Joseph (Fabrizio Rongione), irmão de Oscar. Joseph é bondoso e simpático e os dois formam uma amizade peculiar.

Logo no início, o público que não está familiarizado com a filmografia do diretor pode estranhar a forma como os atores se portam. É difícil se identificar com personagens que parecem um tanto robóticos, falando como se fossem pessoas normais lendo um texto teatral, um discurso sem entonação na voz. Passado um tempo, esquece-se a estranheza e embarca-se na história, que não passa de um filho atrás de seu pai biológico e que decide mudar seu destino. Não deixe de assistir esse filme, uma experiência sensorial muito interessante de um diretor com um estilo que lembra muito um Buñuel, surreal, porém fascinante.

Nota:

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Sobre Marcela Sachini
Libriana (portanto, indecisa), sou viciada em seriados (inclusive sul-coreanos), apaixonada por idiomas, música e literatura. Moraria em Notting Hill com toda a certeza, só esperando um convite do Henry Cavill para isso. Fui ao cinema pela primeira vez com 6 anos. Foi amor à primeira vista, desde então não parei mais.