QpQ Resenha | Big Little Lies

"Big Litte Lies" é cheia de raiva e verdade ao mostrar as mulheres derrotando seus medos

O destemido mundo das donas de casa desesperadas é mais comum do que parece, até mesmo aqui no Brasil, e não precisa ir muito longe para reconhecer uma delas. Mulheres insatisfeitas, traumatizadas ou que não entendem suas imperfeições, prontas para fingir e sustentar uma máscara nas ruas que encoberta verdades que elas tem vergonha de admitir pra si mesmas. Isso reflete um pouco ao mundo contemporâneo, em que alguns valores como o casamento perderam sua forma, mas ainda são cobrados de existir e de serem perfeitos. Grande culpa disso tudo está no mundo dos homens, mas há uma resistência contra esse “mal”, chamado feminismo.

Big Little Lies, a nova minissérie da HBO criada por David E. Kelley, abusa desse conceito feminino para contar histórias cruzadas de mães que estão no seu limite. Na pequena cidade de ricaços em Monterey, vivem a inquieta Madeline (Reese Witherspoon) que continua à sombra de um antigo casamento falho e de um segundo casamento infeliz, Celeste (Nicole Kidman) que se encontra em uma situação abusiva e agressiva com seu marido Perry (Alexander Skarsgard) e a recém chegada Jane (Shailene Woodley) que foi vítima de estupro. O problema começa quando a filha de Renata, vivida pela sempre ótima Laura Dern (Enlightned), acusa o filho de Jane de tê-la machucado na escola. A construção de perfis femininos que sofrem dessa influência opressora machista começa nesse pré-primário sem a gente se dar conta de início. A situação das mulheres com relação a sexo, a falta de auto-estima ou a sobra da mesma, tem muito a ver com o modo como elas são tratadas por seus respectivos maridos, amantes e principalmente amigas ou falseanes. Isso molda suas maneiras de enxergar o futuro e as possibilidades. Será que eu sou apenas uma mãe? Por que eu não voltei a trabalhar? Isso é suficiente pra minha vida? Qual o exemplo que estou dando aos meus filhos? E a lista de atribuições e culpas vão longe.

Na melhor tradução do título original, a série realmente lida com mentiras pequenas que carregam uma carga grande para todas as mulheres. Uma omitida pode ser responsável até por um assassinato. E é por aí que a trama nos leva, nessa metáfora exagerada que faz todo o sentido. Uma pessoa pertencente a esse núcleo, morreu na noite mais importante para os moradores da pequena cidade e ao longos dos episódios, flashs de depoimentos dos personagens coadjuvantes soltam julgamentos em forma de opiniões que o espectador pode ter com relação as protagonistas, a famosa fofoca e presunção. Numa montagem muito inteligente, a linguagem que liga sequencias expressivas de sentimentos como uma corrida na praia para extravasar ou um grito longo de alívio no infinito, é colidida com imagens das ondas do mar quando se chocam na pedra. E pequenos pensamentos também são usados para contextualizar conforme os personagens vão se abrindo mais.

Um show de roteiro e amarração de trama que só a HBO sabe fazer. Big Little Lies ainda acerta na escolha de um elenco provocante, que pode causar recusa por não serem tão adoradas pelo público, mas que cumprem seus papéis exatamente de maneira controvérsia. Texto forte, lotado de boas referências musicais e conceito bem afinado, essa é mais uma boa obra para ser lembrada num momento tão oportuno de empoderamento.

Nota:

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Sobre Felipe Cavalcante
Formado em RTV, fã de boas músicas e boas histórias, sempre em busca de coisas novas e empolgantes. Obcecado por super-heróis e pela magia do impossível que se torna real nas telas da TV e do cinema.