QpQ Resenha | O Profeta das Águas

Preso injustamente na ditadura militar, Aparecidão ganha documentário

Um documentário brasileiro. Uma história cujo desconhecimento ainda é grande no país. O Profeta das Águas finalmente chega às salas comerciais após arrastados doze anos de produção e pesquisa iniciadas em 2005, na pequena Rubineia, região norte do interior paulista. O objetivo é narrar a trajetória de Aparecido Galdino Jacintho, que liderou um movimento messiânico com suas bençãos milagrosas e chamou a atenção dos militares no começo da década de 70, criando consequências avassaladoras para o seu próprio destino.

Depois que a construção da Usina Hidrelétrica de Ilha Solteira deixou muitos trabalhadores desabrigados, Aparecidão, como é conhecido até hoje entre antigos seguidores, amigos e vizinhos, inicia uma mobilização social em defesa das pessoas ameaçadas, formando seu “Exército da Salvação”, como o próprio chama no filme, para tentar impedir mais problemas. Um ato religioso que acaba incomodando, dividindo opiniões e o levando para a prisão injustamente como ameaça à segurança nacional, onde é encarcerado até ser considerado louco e enviado a um manicômio judiciário. Tanta tortura terminaria somente anos mais tarde com a ajuda de personalidades interessadas no caso e falta de provas.

Trabalhador rural, fanático religioso e dito santo por muitos, Galdino reuniu discípulos com sua fé na cura de diversos males. Atualmente com mais de noventa anos, o mito regional continua vivendo em sua humilde casa, na mesma cidadezinha, junto de seus filhos. O filme é interessante por retratar perseguição religiosa durante uma época de repressão política e governo ditatorial. O diretor e roteirista Leopoldo Nunes traz testemunhas cruciais para o documentário, unindo materiais arquivados e reportagens de jornais e revistas da época, na medida em que reconstitui a memória dos acontecimentos.

Entretanto, o “profeta” parece mais um lunático que não precisa ser levado a sério em momento algum. O viés do trabalho de Nunes é a injustiça com um sujeito que ficou sem liberdade para acreditar e compartilhar a crença que quisesse, sem demonstrar apoio ou rejeição às atitudes retratadas. Há controvérsias sobre os passos do preso político, que são desnecessários e sem graça se bifurcados do contexto histórico apresentado, mas interessantes para termos ainda mais convicção do quão assombroso já foi Brasil.

Nota:

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Sobre Diego Patrick
Formando em jornalismo pela FACHA, já assinou reportagens para revista e portais. É fascinado pela magia do cinema e da literatura, com uma coleção de livros e filmes favoritos na estante. Além da profissão, pretende seguir carreira como escritor e ensaísta.