QpQ Resenha | Master of None – 2ª Temporada

"Master of None" volta com um roteiro cheio de romance e episódios memoráveis

Ah, a Itália. Terra de grandes histórias do cinema, uma verdadeira poesia traduzida pelo ar, arquitetura, cozinha, música, beleza, idioma, gestos expressivos e muito romance. Vista em preto e branco, o aspecto de civilização antiga sendo explorada aos poucos pela tecnologia, causa ainda mais uma sensação de refúgio e contentamento. Mas aí, lembramos que estamos assistindo a uma série protagonizada por um indiano, emerso nesse ambiente ocidental, que mais combinaria com A Vida é Bela e Monica Belucci. A Netflix tem dessas, abrir a narrativa por uma outra perspectiva que nunca foi mostrada antes, e que justamente trata com a naturalidade que sua trama merece, reportando aquilo que está nas ruas e na nossa vida.

O produtor, ator, diretor e roteirista Aziz Ansari, retorna para a segunda temporada de Master of None ainda mais afinado ao tema proposto no primeiro ano: falar sobre a vida adulta dessa geração. Dessa vez, ainda mais maduro após o péssimo término com Rachel (Noël Wells), Dev (Ansari) tenta se reencontrar aprendendo a fazer massas numa pequena cidade italiana, mas nessa viagem ele acaba conhecendo Francesca (Alessandra Mastronardi), uma charmosa mulher local, que o faz esquecer todas as coisas ruins que vinham acontecendo com ele. Sem entrar em spoiler, a construção do roteiro em torno dessa relação que é criada para os dois, é uma das mais orgânicas de todas, tendo como referência Sob o Sol da Toscana e todos os filmes do Woody Allen. Numa perspectiva muito apurada do roteiro, os episódios são independentes e cada um foca em um assunto específico, desde o dia de ação de graças em que Denise (Lena Waithe) sai do armário para sua família, até um episódio parcialmente mudo, onde acompanhamos uma mulher surda durante seu dia-a-dia em Nova York. A temporada ainda ganhou reforço com participações especiais de Angela Bassett, Bobby Cannavale, John Legend e Raven Simone em papeis importantes para a história.

Com a força de um discurso aberto sobre racismo, política, aplicativos de encontros e até assédio, Master of None funciona como um diário da sociedade americana e suas limitações. A comédia dramática ainda toca em assuntos como tradições religiosas e como os jovens não tem um interesse genuíno por rotinas de tradições, orações e catecismos baseados em velhos livros. A tela é preenchida por um mix de etnias e diferenças culturais que são tão confortáveis de assistir que nem parecem com uma trama e sim com experiências de cotidiano. O roteiro também se mantém firme e bem estruturado em controlar seus níveis de humor e drama, construindo suas próprias piadas internas sempre com a ajuda de Arnold (Eric Wareheim) o melhor amigo grandalhão que alguém pode ter, fotografias icônicas e referências de arte e cultura pop sem exageros. A série sabe direcionar muito bem seus núcleos e as relações afetivas de todos os personagens, abusando de diálogos improvisados e cenas soltas que pouco parecem ensaiadas.

Master of None, talvez não tenha o devido reconhecimento por também cumprir sua parte assim como outras séries da casa como Orange Is The New Black e Cara Gente Branca fazem, mas é de se prestigiar o que a segunda temporada construiu com um material tão simples e ao mesmo tempo refinado a uma ótima que desconstrói o tradicional. Mais um acerto do serviço de streaming que trouxe dez episódios de puro entretenimento, conscientização e ainda mais romance.

Nota:

Please follow and like us:
Sobre Felipe Cavalcante
Formado em RTV, fã de boas músicas e boas histórias, sempre em busca de coisas novas e empolgantes. Obcecado por super-heróis e pela magia do impossível que se torna real nas telas da TV e do cinema.