QpQ Resenha | Animal Político

“Animal Político” é um drama com tons de arte carregado de simbolismos

O melhor do longa Animal Político com toda a certeza é a abertura. Tudo nela é plástico, é bonito e te faz refletir. A ideia de “homens” sem cabeça perambulando por um cenário árido é bastante alegórica. Há apenas rochas, nuvens e o homem sem cabeça. Podemos refletir que a ausência da cabeça é ausência de consciência, e as nuvens são as ideias, que não estão contidas no homem, mas estão ali ao seu redor. O árido pode representar o mundo proveniente dessa ausência de consciência ou vida própria, onde nada cresce. Entender isso logo de cara ajuda a diluir o restante das ideias que serão apresentadas ao longo do filme (e que não são poucas!).

Os planos iniciais são esteticamente agradáveis. O restante do filme oscila entre esteticamente agradável e esteticamente duvidoso. Faltou uma unidade artística que atasse todo o mundo apresentado em Animal Político. A sensação que temos é que no decorrer da obra somos apresentados a diferentes retalhos de ideias que pretendem, ao final do filme, construir a colcha filosófica que ela gostaria de tecer.

Conceitos como “somos gado, não temos vontade própria” ou “somos guiados por instintos e necessidades, reais ou criadas para serem reais” funcionam de forma clara. Outros conceitos, como os apresentados na história da garota caucasiana (uma espécie de curta dentro do filme), se tornam confusos. Essa confusão se deve pelo excesso de simbolismos apresentados no filme. Por exemplo, no início de Animal Político somos apresentados à ideia da não consciência do homem moderno. Já em a pequena caucasiana, essa ideia se dispersa e levanta outros pontos e direções. Ao invés de aprofundar, o filme reflete sobre as origens dos “cabrestos” que prende o gado (o homem branco e rico que domina e expande seu império) ao mesmo tempo que enaltece um dos “cabrestos” modernos que guia o homem em sua jornada de submissão (a dominação das normas da ABNT sobre a construção do pensamento racional).

A história da pequena caucasiana tem a estética de película granulada e antiga, fazendo referência a uma memória dentro do filme (esse tem a estética de imagem digital). A pequena caucasiana divide Animal Político em dois. Essa pausa no meio do filme para delimitar e explicar quem domina quem não é clara, pois demanda um repertório que o público em sua grande maioria não tem. Posso estar subestimando o público? Sim! Quero muito estar errado.

Da segunda metade para o final do filme, Animal Político tenta retornar à ideia inicial da ausência de consciência do homem moderno refletindo sobre como esse homem tenta despertar dessa caminhada errante buscando alternativas e novos caminhos. Se não houvesse a pequena caucasiana, talvez o filme fosse mais digerível e mais fácil. Contudo, Animal Político é uma obra interessantíssima. Vale a pena conferir, muito mais pela abertura do filme (realmente me impressionou pela plasticidade) e menos pelos diálogos filosóficos. São questões demais e respostas de menos.

Nota:

Sobre Viní­cius Gratão
Geek de carteirinha, apaixonado por quadrinhos, games, animes e tecnologia. Formado em cinema, amo particularmente os clássicos e os westerns à  italiana. Acredito em tudo, inclusive em Tex Willer.