QpQ Resenha | Em Guerra por Amor

"Em Guerra por Amor" recria com bom humor e faz uma critica certeira à “libertação” da Sicília após a Segunda Guerra

O humor nem sempre é dado o valor que merece na sétima arte. Considerado por muitos como a arte mais “fácil”, em vista do drama, o humor tem um papel crucial na história, como válvula de escape, como crítica mordaz. Preston Sturges, em seu brilhante filme Contrastes Humanos (1941), já alertava para o grande valor do humor. Foi ali que aprendi – embora tardiamente na vida – o quanto essa ferramenta maravilhosa pode encantar, tranquilizar e suscitar reflexões no público. Em Guerra por Amor é um exemplo forte de como o humor pode conscientizar o espectador no que diz respeito ao que realmente se passou, assim como criticar os governos e governantes que detêm o poder e que sempre prometem e ludibriam os cidadãos na hora em que mais precisam. Pierfrancesco Diliberto, vulgo Pif, escreve, dirige e atua nesse filme esplêndido a respeito da transição de poder do Eixo, na Segunda Guerra Mundial, para os chefes mafiosos na Sicília logo após.

Pif interpreta Arturo Giammaresi, um moço sem grandes ambições na vida além de casar-se com sua amada, a filha do patrão. Porém, Flora está prometida em matrimônio a um moço americano mais poderoso e rico. Ademais, como se trata de italianos e o ano de 1943, é necessário lembrar o quanto os italianos sempre prezaram por costumes tradicionais católicos e, portanto, é imprescindível o pedido da mão de Flora a seu pai, que está na Sicília, lugar onde a guerra continua a pleno vapor, com bombas sendo jogadas quase diariamente – e numa sequência hilariante, descobrimos a ferramenta tecnológica que os sicilianos possuem para alertá-los da iminência de mais uma bomba.

Giammaresi então se alista no exército e se torna um soldado-raso encarregado de ajudar a libertação dos sicilianos do controle de Mussolini. A historia conta que os Aliados mandaram tropas americanas a mando do general Patton para libertar o povo do nazismo alemão e do fascismo italiano. Giammaresi se aproxima do tenente Philip Chiamparino, um homem sensato e comprometido com a sua pátria, os Estados Unidos, mais ainda do que isso, comprometido com a civilidade e a compaixão.

Enquanto Giammaresi procura pelo pai da Flora, encontramos personagens coadjuvantes tão cativantes quanto o protagonista, dentre os quais se destacam o cego e o “aleijado” da cidade. Com uma história comovente, Pif consegue tecer uma narrativa histórica, hilária, ácida e emocionante a respeito dessa transição de poder, que acabou por recolocar a máfia ao poder. Chega a ser horripilante o discurso final de um dos chefes mafiosos explicando o que é democracia.

Em tempos em que vivemos tanto extremismo, seja de opiniões bradadas com convicção inexorável sem exercício da reflexão ou de intolerância quanto ao que é diferente e/ou contrário ao que se acredita, vale a pena ver um filme desses, onde o humor revela o abandono do povo siciliano que, orando por democracia e liberdade, recebeu apenas assistencialismo e oportunismo.

Nota:

Sobre Marcela Sachini
Libriana (portanto, indecisa), sou viciada em seriados (inclusive sul-coreanos), apaixonada por idiomas, música e literatura. Moraria em Notting Hill com toda a certeza, só esperando um convite do Henry Cavill para isso. Fui ao cinema pela primeira vez com 6 anos. Foi amor à primeira vista, desde então não parei mais.