QpQ Resenha | Glory

Todos os tons da glória no candidato búlgaro ao Oscar de 2017

Para ser franco, o meu último contato com o mundo cinematográfico dos Bálcãs se deu, do início ao fim, com os dramas meio otimistas do icônico diretor sérvio Emir Kusturica. Foi no período mais famoso deles, em meados dos anos 2000. Todo o resto vindo dessa região da Europa parece contar aquela mesma história de perpétua corrupção, crime e desespero, falando de maneira muito peculiar daquele lugar em que a realidade se mistura com o mítico, em um tom emocionante e extremamente dramático e que em geral quase não existe fora das telas dos festivais de cinema.

Glory é o segundo trabalho em conjunto dos diretores búlgaros Kristina Grozheva e Peter Volchanov. Inspirado numa notícia de jornal, o filme é mesmo sobre corrupção, desigualdade entre cidadãos rurais e urbanos, assim como todo tipo de crime e coisa ilegal. É uma história sobre a insólita trajetória de duas pessoas muito diferentes, vivendo nos lados opostos da barricada do poder e da mídia, narrada em uma escala que sabe flutuar bem entre drama e humor.

Tsanko Petrov (Stephan Denolubov) – é um trabalhador ferroviário solitário, homem de meia-idade, vivendo nos subúrbios de Sofia. Todos os dias ele toma seu café da manhã acompanhando as notícias de televisão e vai inspecionar as vias ferroviárias com uma chave inglesa de seis quilos nas costas. Ele quase não recebe o suficiente para pagar as próprias contas, trabalha para uma empresa pública envolvida em um escândalo de corrupção de milhões de euros, enquanto os seus empregados esperam por dois meses de salário não pagos. Os seus colegas sabem como resolver a situação, roubando óleo diesel dos tanques de combustível das locomotivas. Tsanko se mantém fora de tudo isso. Ele tem bons amigos como a vendedora do mercado local, rega a cerca-viva do seu jardim e cuida de uma lebre que cria no pátio de sua casa. No entanto, um dia ele encontra um monte de dinheiro jogado no caminho do trabalho e conta à polícia sobre o achado. Em menos de um dia ele se torna uma sensação nacional. Tsanko é então chamado a Sofia para participar de uma conferência de imprensa, onde o ministro do transporte da Bulgária lhe homenageia pelo que havia feito.

A conferência de imprensa é organizada por Julia Stajkova (Margarita Gosheva), que trabalha como diretora do gabinete de imprensa ministerial. Mulher na casa dos 40, ela é uma personagem cínica que combina a carreira da mídia política com as tentativas de engravidar. Seu marido apoia com entusiasmo todos os preparativos para a inseminação artificial: em um dos episódios, ele traz seus remédios para o escritório e ajuda Julia a fazer uma injeção de hormônios em plena sala de reuniões, enquanto se escondem dos colegas que vão passando por trás da bandeira da União Europeia…

A conferência de imprensa do ministério começa com um estudante de escola primária declamando um poema do poeta revolucionário Nikolai Vaptsarov, no qual se enaltecem os trabalhadores das ferrovias. Durante esse discurso, Julia decide tomar o velho relógio que Tsanko levava em sua mão, com medo de que isso fosse visto na TV como um presente dado pelo ministério e causasse mais constrangimentos para a imagem do governo. O problema é que depois ela vai perder o relógio.

Enquanto isso, Petrov Tsanko usa seu espaço na mídia para fazer suas queixas sobre os atrasos salariais e os assaltos em massa sofridos nas estradas de ferro, o que irrita o ministro, que rapidamente sai do evento. Ao notar este episódio, o jornalista de TV da oposição, Kiril Kolev, começa um contato com Tsanko.

O relógio perdido por Julia era na verdade um valioso presente dado pelo pai de Petrov, produzido pela antiga fábrica russa chamada Glory. No dia seguinte ao da entrevista, ele começa as tentativas de resgatar seu precioso relógio. A busca é complicada pela dificuldade de Petrov para se explicar bem (ele gaguejava muito), além da inércia burocrática da agência governamental e a indiferença de Staikova, que estava mais preocupada com seus problemas de trabalho e família. Já desesperado ele apela ao jornalista Kolev, que se aproveita da sua ingenuidade. Aparecem aí revelações que causariam escândalo na mídia e acabariam jogando as vidas de Petrov e Stajkova em uma confusão sombria.

Glory teve sua estreia em 2016 no Festival Internacional em Locarno, recebendo nota especial do júri. No momento, seu roteiro já recebeu vários prêmios de festivais europeus e americanos. Sem dúvida, a narrativa dinâmica, com transições inesperadas do desespero ao humor é a principal vantagem desse filme búlgaro.

O limite entre o drama e o humor é mantido de maneira perfeita pelo trabalho do operador, que varia planos fotograficamente calibrados com a dinâmica “manual” na tela e também com a jogada da forma entonada dos principais atores. De vez em quando, você se mexe nervoso na cadeira, mas no final nada disso vai deixar aquele sabor amargo com a falta de esperança dessas histórias em que o homem ordinário tem que enfrentar o sistema de governo.

Se você estiver cansado dos blockbusters hollywoodianos, mas ainda não se sente com fôlego para acompanhar os longos planos contemplativas do cinema europeu, Glory será um bom filme para começar.

Nota:

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Sobre Igor Shevchenko
Jornalista e gerente de comunicação, em Kiev, Ucrânia. Cultiva seu interesse pelo cinema, que aprecia pela sua natureza sintética e pela capacidade de atrair a cada pessoa em seu universo interior. Acredita que vivemos o melhor momento na produção cinematográfica, que já fez diversas descobertas, mas ainda está cheia de oportunidades criativas. Entre seus favoritos, acompanha com entusiasmo a Lars von Trier, Terrence Malick, Andrey Zvyagintsev, John M. McDonagh, Xavier Dolan, Sofia Coppola e muitos outros.