QpQ Resenha | Deserto

"Deserto" faz Gael García Bernal e Jeffrey Dean Morgan se enfrentarem em uma perseguição feito gato e rato pelo sonho americano

Um filme mais que atual, Deserto traz à tona a questão da imigração num suspense psicológico e alucinante. Moises (Gael) é um mecânico mexicano que está fazendo a travessia para chegar aos Estados Unidos junto a um grupo de pessoas que também estão em busca do sonho americano. Porém, devido a um problema mecânico na picape, eles precisam recorrer ao plano B e atravessar o deserto que leva à fronteira a pé.

Mas tem caroço nesse angu. Esse caminho que vão pegar é perigoso, porém não há alternativa. E aí entra a figura de Jeffrey Dean Morgan (o Negan de The Walking Dead), como Sam, um lunático com um patriotismo cego que caça os imigrantes clandestinos. Isso mesmo, caça, feito bichos, a sangue frio.

Nada como uma arma para imbuir o homem de poder, e eis aí apenas mais um dos paralelismos com a atual situação do país, no melhor estilo a vida imita a arte, que imita a vida. Jonás Cuarón, filho do Alfonso Cuarón (Gravidade), consegue tecer uma história curta, com poucos diálogos, porém com muita margem à reflexão do espectador. Aqui, caça e caçador apostam suas vidas; de um lado, o imigrante ilegal que possui um motivo tocante para atravessar a fronteira, de outro, um homem que se colocou a cargo da proteção da fronteira da maneira mais cruel, desumana e perversa que se possa imaginar.

O estilo de filmagem de Cuarón, contemplando a imensidão do deserto mesmo em closes em momentos cruciais da história, produz uma fotografia belíssima, transbordando vivacidade, adrenalina e o aspecto mais visceral do ser humano: a capacidade de crueldade, assim como a de compaixão. O sangue contrasta com as cores pastéis e a poeira habitual do deserto. A forma como a trilha e o dinamismo se mesclam às nossas expectativas e nos fazem quase participar desse “jogo” é muito bem executada.

Você pode se perguntar se um filme como esse não teria feito a diferença na eleição americana, mas já digo que sim, ele fez, pois foi lançado em 2015, com o timing perfeito. Mas como o sistema eleitoral americano não equivale ao voto popular, nos encontramos na atual situação. De qualquer forma, como o próprio Gael disse, sempre é o momento de se discutir a imigração. E não há momento melhor para prestigiar esse grande pequeno filme nos cinemas.

Nota:

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Sobre Marcela Sachini
Libriana (portanto, indecisa), sou viciada em seriados (inclusive sul-coreanos), apaixonada por idiomas, música e literatura. Moraria em Notting Hill com toda a certeza, só esperando um convite do Henry Cavill para isso. Fui ao cinema pela primeira vez com 6 anos. Foi amor à primeira vista, desde então não parei mais.