QpQ Resenha | Invisível

Ely é uma jovem estudante que sofre as desilusões de uma vida solitária sem perspectiva de futuro

Existem usos e usos de silêncio na dramaturgia. Alguns o fazem de maneira sublime, como o italiano Antonia, outros flertam com o mesmo, mas não conseguem transmitir tudo que um silêncio é capaz de imbuir. É o caso de Invisível, do diretor Pablo Giorgelli. Em Buenos Aires, Ely é uma garota trabalhadora, que ainda cursa o ensino médio e trabalha o restante do tempo em um pet shop. Lá ela tem um caso com o patrão casado, Raúl, e dele acaba engravidando.

Como se não bastasse a tragédia pessoal, sua mãe parece estar com algum problema de saúde que a deprimiu de tal forma que ela nem sai de casa. Nos momentos iniciais do filme, inclusive, parece até que Ely mora sozinha, tamanha sua invisibilidade até perante à própria mãe. A garota tenta resolver a situação da gravidez comprando pílulas que são proibidas no país sem receita, isso porque é frisado diversas vezes que na Argentina é proibido abortar por motivos “menores” do que violência sexual ou risco de vida.

Seria uma história envolvente, não fosse a completa falta de identificação com a personagem. Ela mal fala, mal expressa seus sentimentos, mal ouve uma música – e, consequentemente, mal ouvimos também. Há um ponto muito válido, a discussão clara do aborto ilegal exceto em casos extremos, do papel da mulher do ponto de vista da sociedade latina, que não tem nem direitos acerca de seu próprio corpo, e enfatizando o machismo deste pensamento generalizado. Mas a grande sensação que o filme deixa é de tédio, de decisões que não são tomadas, de falta de comunicação.

O tema do filme é inegavelmente pertinente e realista, mas poderia ser melhor executado. Em vez de aproximar o público dos dramas da personagem, a trama distancia, pois não sabemos de fato o que ela pensa, o que almeja, vemos algumas expressões de medo, mas tão sutis que não bastam. Uma das cenas que apresenta maior identificação com a personagem é dela finalmente falando de maneira sincera e impaciente com a mãe. Pode ser que o silêncio de “Invisível” careça de poesia, de beleza, frente às agruras da protagonista; essa que, em meio ao caos, se torna essencial.

Nota:

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Sobre Marcela Sachini
Libriana (portanto, indecisa), sou viciada em seriados (inclusive sul-coreanos), apaixonada por idiomas, música e literatura. Moraria em Notting Hill com toda a certeza, só esperando um convite do Henry Cavill para isso. Fui ao cinema pela primeira vez com 6 anos. Foi amor à primeira vista, desde então não parei mais.