QpQ Resenha | No Intenso Agora

Pela via do afeto, "No Intenso Agora" fala que, mesmo efêmeras, as revoluções são necessárias

A poeta polonesa Wislawa Szymborska, em um poema chamado Filhos da Época, escreveu os seguintes versos: O que você diz tem ressonância/O que silencia tem eco/de um jeito ou de outro político. Os versos seguem, em tons irônicos ou críticos sobre a existência, plural ou singular, ser um ato político. A interpretação desse político nos versos depende, também, do ponto de vista de quem os lê, da passagem do tempo sobre a escritura e o leitor. Assim como na poesia e seus versos, no cinema é o olhar – e o que se escolhe filmar – que nos dá o tom político ou não da situação. Em No Intenso Agora, João Moreira Salles fixa-se em 1968, mais particularmente no maio francês, para travar diálogo entre as intensidades dos momentos e a reverberação pela história.

A segunda metade da década de 1960 foi intensa, aconteceram altos e baixos pelo mundo todo que ainda se tentava entender o fim da segunda guerra mundial. Assistia-se a Guerra do Vietnã; a contracultura estadunidense inspirava pelo mundo, indo contra a guerra; os estudantes franceses, longe da universidade, tentavam travar diálogos com o operariado; em Praga, acontecia uma das primeiras primaveras contra um regime distorcido; e na China, Mao se esforçava em apagar as ideias revisionistas e o rastro de miséria que insistia em aparecer. Partindo de vídeos amadores de sua mãe na China, em 1968, João Moreira Salles cria um diálogo de afeto entre as percepções de Elisa Moreira Salles sobre essa viagem e câmeras anônimas pelo mundo – outras nem tanto, são documentários de época – em Paris, Praga e Rio de Janeiro. Narrado pelo próprio diretor, o longa apresenta análises poéticas sobre a intensidade das utopias e ideias revolucionárias, mas também mostra o rastro nostálgico que elas deixam quando caem por terra no movimento da história.

Há uma escolha pelas multidões, pelos anônimos e por todos aqueles que ninguém reconhecerá na exposição das imagens. Mas também há análise imagética das figuras centrais dos movimentos como Daniel Cohn-Bendit e Mao Tsé-Tung, além dos mártires dos movimentos e suas mortes como respostas ao que não deu certo. Não foram esquecidas as cenas filmadas por Eduardo Escorel, depois da morte do jovem Edson Luís, no começo da ditadura no Brasil. Esses contrapontos, a massa e as vozes mais altivas, se relacionam perfeitamente com a afetividade das lembranças da mãe do diretor. As anotações dela sobre a China daquela visita dialogam intimamente com descrições mais políticas, como as do escritor italiano Alberto Moravia. Mais uma vez, tudo é política, somos filhos de épocas políticas e a história atravessa nossos corpos e memórias.

Um dos pontos altos na escolha de montagem de No Intenso Agora é que, pelas imagens serem feitas por desconhecidos, ganham novas proporções, olhares mais espontâneos e percebemos a intensidade daqueles momentos para quem os viveu, independente do lado. Uma análise sobre a flexibilidade de um corpo que atira uma pedra é acurada, intimista e poética, percebe-se os músculos tensionando no corpo e mente indignados. Importava apenas aquele momento. Já o balé orquestrado de crianças chinesas, declamando falas de Mao Tsé-Tung, é a dança calculada e ritmada, não podendo ser tensionada ou sair do lugar pré-estabelecido. João Moreira Salles escolhe e fala pelas imagens, não promove significados mas sim afetos.

Apesar de fazer uso de fatos eurocêntricos, o documentário dialoga pelo tom do afeto em relação a uma ideia de fracasso, passível de diálogo histórico. Explora a euforia daqueles que tomavam ruas ou mesmo dos que acreditavam na salvação através da ordem. Quando mostra as cenas de Praga, por exemplo, é assustador ver como a repressão é algo que está sempre à espreita, de um momento para o outro, câmeras que passeavam pelas multidões insatisfeitas se escondem atrás de uma cortina. Os direitos sempre estão correndo riscos, uma lição que sussurra pelos livros de história, pela intensidade dos agoras de cada época.

Assim como o anjo da história de Walter Benjamin, aquele que indo em direção ao futuro, olha para trás e percebe as cinzas da história, No Intenso Agora pensa as cinzas deixadas por micro histórias, dentro da história oficial, para perceber as reverberações no passado e presente. É um afeto sobre a crença das utopias, longe de dizê-las mortas ou acabadas, mas mais como um chamamento para que sempre existam momentos de crenças revolucionárias, que se repitam, que não desapareçam mesmo que percam suas forças. É a intensidade no efêmero presente que modifica.

Nota:

Sobre Emanuela Siqueira
Formação em Letras mas é multitask por opção. Cinema, Literatura, Feminismo, Cultura Livre, Música barulhenta, Quadrinhos e Tradução definem um pouco. Tem fé em Darren Aronofsky e acredita em vida atrás das telas.