QpQ Resenha | Lygia, Uma Escritora Brasileira

"Lygia, Uma Escritora Brasileira" aposta mais na biografia de uma mulher do que na sua carreira como escritora

O Prêmio Nobel de Literatura – premiação concedida pelas academias sueca e norueguesa – existe há cento e dezesseis anos. Nas suas mais variadas categorias, apenas quarenta e nove mulheres foram premiadas nesse mais de um século de existência e, na categoria de literatura, esse número é ainda menor. Lygia Fagundes Telles é a única indicada até hoje pela UBE (União Brasileira de Escritores) ao prêmio sueco. Não por menos, com 94 anos ela é prolífica, publicando desde 1934, já ganhou inúmeros prêmios e tem sua obra traduzida em várias partes do mundo. Essa longa história de uma escritora viva tentou ser brevemente tratada no documentário Lygia, Uma Escritora Brasileira, dirigido por Hélio Goldsztejn e produzido pela TV Cultura. Porém, é uma pena que o filme tenha caído nos mesmos clichês de quando se trata da produção cultural de mulheres: foco extremado no biografismo enquanto a produção estética é relegada ao segundo plano.

Qual a dificuldade de falar e escrever sobre uma escritora se, desde sempre, nos reportamos à literatura – como termo amplo e masculino – com facilidade quando falamos de João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e Machado de Assis, citando apenas os brasileiros? É uma pergunta cotidiana quando nos questionamos quantas e quais mulheres lemos. Não é uma questão de ler apenas um e/ou outro, mas também algo que tem a ver com a forma que o gênero pode definir a escrita de alguém. No caso de Lygia, Uma Escritora Brasileira, a narrativa se concentra numa autora que publicou nada menos que quatro romances e vinte e um livros de contos, sua especialidade. Sobre os homens citados acima, uma ou outra peculiaridade é comentada sobre suas vidas pessoais, porém, a genialidade de Guimarães Rosa em criar uma linguagem própria de seus personagens e a fina ironia de Machado de Assis são aspectos que estão na ponta da língua. Sendo assim, por que uma escritora com vinte e cinco livros na conta não merece nenhum discurso aprofundado sobre sua obra, mas comentários sobre seus dois casamentos?

O documentário ganha corpo e voz quando emerge com as falas da escritora na imprensa e em arquivos pessoais. Lygia Fagundes Telles é uma mulher firme, com um discurso notável. Encara as câmeras e gesticula de forma que deixa o espectador hipnotizado e confortável. Não apenas domina a escrita como também sabe defender cada pequeno detalhe do que já publicou e da forma que lida com o ato de escrever. Mesmo que diferentes, percebe-se semelhanças entre ela e Clarice Lispector, por exemplo, de quem era amiga. Uma muito sorridente e a outra com o clássico mistério no olhar falam de ficção e da doação – tão comum no discurso de autores – quando se trata da criação. São autoras falando na condição de criadoras, não há nada de feminino nisso. O crítico Manuel da Costa Pinto, durante falas prolixas, diz que a literatura de Lygia é mais feminina do que feminista. O que são esses termos, como ele define essas categorias? Aqui, elas são escritoras, apenas.

Aliás, boa parte do time que dialoga no documentário – formado por críticos literários, jornalistas, amigos e parentes próximos – parecem perder de vista que Lygia Fagundes Telles merece destaque pelos seus feitos literários, sendo que foi por isso que concorreu ao Nobel de Literatura. Quanto a familiares e amigos, é esperado que se apeguem mais à persona da autora e menos a seus livros, mas é inconcebível que um crítico literário fale mais como os maridos dela tenham ajudado a moldá-la como escritora. Isso é uma forma de silenciamento, mesmo quando colocado dentro de uma causa nobre como a de documentar a vida de uma escritora tão importante.

Ainda que com deslizes, vindos mais dos convidados que parecem ter lido pouco da autora, se atendo tanto à sua biografia, Lygia, Uma Escritora Brasileira consegue montar vários recortes da escritora em cena desde o lançamento de seu primeiro livro. É muito importante ver e ouvir Lygia falando dos contextos em que escreveu e como suas personagens dialogavam com os períodos, tornando-se peças históricas. Sua vida se entrelaçou na construção de sua ficção, mas não da forma denunciada pelos outros e sim como alegoria, metáfora e construção estética. Mais uma vez, ao invés de silenciar a escritora através de depoimentos com julgamentos de valor, é muito mais eficiente passar a palavra aos seus escritos e a sua fala. Mesmo assim, vale a pena ver Lygia, Uma Escritora Brasileira, pois ainda precisamos celebrar essas autoras e, acima de tudo, lê-las.

Nota:

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Sobre Emanuela Siqueira
Formação em Letras mas é multitask por opção. Cinema, Literatura, Feminismo, Cultura Livre, Música barulhenta, Quadrinhos e Tradução definem um pouco. Tem fé em Darren Aronofsky e acredita em vida atrás das telas.