10 FILMES | Os melhores filmes alternativos de 2017

Entre tantos alternativos, 10 FILMES foi até pouco. Confira a lista!

Fugir um pouco dos grandes circuitos do cinema mais comercial pode fazer muito bem para nosso discernimento diante do mundo. 2017 foi um ano muito bom para o cinema brasileiro, por exemplo. Tivemos o Festival de Brasília com várias temáticas polêmicas e o 6º Olhar de Cinema – que acontece aqui em Curitiba – fechou com um filme arrebatador de uma realizadora jovem. Pelo mundo tivemos destaque do cinema francês e inglês, sem contar o número crescente de realizadoras mulheres que apresentaram trabalhos de fôlego. Foi um bom ano para colocar dedos nas feridas mais recentes e ainda assim manter um alto nível de estética cinematográfica.

Eis uma lista breve dos melhores que vi esse ano, muitos ficaram de fora mas estes já são um começo para pensar um contexto geral da produção que corre além do cinema de entretenimento.


ERA O HOTEL CAMBRIDGE
(Era o Hotel Cambridge, 2016, 1h39)

Direção: Eliane Caffé
Elenco: Carmen Silva, Isam Ahmad Issa, José Dumont e outros

Difícil descrever em poucas palavras a beleza de Era o Hotel Cambridge, da realizadora Eliane Caffè. O grande filme do ano, que mistura documentário e ficção, trata de vários assuntos de discussão necessária no cenário brasileiro: ocupações nos centros das grandes cidades, imigração e coletividades. Tudo feito com maestria, deixando claro que crítica social e estética podem e devem andar juntas. Ninguém sai impune depois do filme.


GRAVE
(Raw, 2016, 1h38)

Direção: Julia Ducournau
Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Naït Oufella e outros

O longa da realizadora Julia Ducournau já estreou de forma polêmica, causando desmaios e impressões fortes já nas primeiras exibições. Isso prova a dificuldade da sociedade encarar a sexualidade das mulheres e as questões mais primitivas que envolvem a domesticação humana. Um filme que flerta com o cinema de Yorgos Lanthimos e mantém o grotesco do melhor cinema francês não tinha como dar errado, né?


EU, DANIEL BLAKE
(I, Daniel Blake, 2016, 1h41)

Direção: Ken Loach
Elenco: Dave Johns, Hayley Squires, Dylan McKiernan e outros

Difícil não gostar de qualquer filme de Ken Loach, o realizador sempre levou muito a sério o projeto de fazer filmes que mostrem as faces mais tenebrosas do capital. Em Eu, Daniel Blake é a hora de mostrar como o sistema nos odeia até a raiz, o filme cai como uma luva em períodos que reformas nas previdências correm o mundo, estourando a corda do lado das pessoas que mais necessitam das migalhas dadas por essas instituições públicas.


UMA MULHER FANTÁSTICA
(Una Mujer Fantástica, 2017, 1h44)

Direção: Sebastián Lelio
Elenco: Daniela Vega, Francisco Reyes, Luis Gnecco e outros

O chileno Sebastián Lelio já havia se destacado com Glória (2013) e Uma Mulher Fantástica surge como um êxtase desse trabalho. O longa trata das agruras de ser uma mulher, independente de nascer como ou tornar-se uma. Um filme belíssimo sobre amor e resistência em um mundo tão espinhoso.


COLO
(Colo, 2017, 2h16)

Direção: Teresa Villaverde
Elenco: João Pedro Vaz, Alice Albergaria Borges, Beatriz Batarda e outros

Teresa Villaverde foi a minha grande descoberta esse ano e Colo é um dos filmes mais tensos que vi na vida. Ele não é tenso porque contém alguma espécie de terror ou suspense, mas porque mostra o desmoronamento das relações humanas diante de uma crise econômica. O filme é esteticamente belíssimo e se constrói nas atuações que contrastam com cada ambiente, os papéis se desfazem e se misturam com o clima e os cenários. Não há esperança diante da impossibilidade do futuro, por isso é necessária a reinvenção.


INVISÍVEL
(Invisible, 2016, 1h30)

Direção: Pablo Giorgelli
Elenco: Mora Arenillas, Mara Bestelli, Agustina Fernandez e outros

O aborto é um dos assuntos mais espinhosos quando se trata de políticas de saúde da mulher pelo mundo. Nesse longa do realizador Pablo Giorgelli é possível se embrenhar no universo de uma adolescente comum que, diante de uma gravidez indesejada, se encontra como um ponto invisível andando pelas ruas, indo para a escola e, ainda mais, invisível nas altas estatísticas de mulheres que se encontram sem domínio nenhum sobre seu próprio corpo. Um filme difícil porque flerta com a realidade de milhares de mulheres, apenas os homens não são invisíveis nessa conta e eles são surdos.


ALÉM DAS PALAVRAS
(A Quiet Passion, 2016, 2h05)

Direção: Terence Davies
Elenco: Cynthia Nixon, Jennifer Ehle, Jodhi May e outros

A poeta americana Emily Dickinson foi uma das mais importantes no que se considera como período moderno na poesia americana. Não foi apenas uma mulher reclusa e difícil de se lidar como se conta em suas biografias, mas antes soube renovar a tradição de baladas, quadras e outros tipos de rimas trazendo a tona um tipo de verso muito peculiar para a época. Nesse longa realizado por Terrence Davis a poesia e a vida de Dickinson andam juntas, inseparaveis. O filme é uma bela ode à grande poeta americana, mostrando que a firmeza sempre foi fundamental para as escritoras mulheres.


BARONESA
(Baronesa, 2017, 1h13)

Direção: Juliana Antunes
Elenco: Andreia Pereira de Sousa, Leidiane Ferreira, Gabriela Souza e outros

O longa realizado por Juliana Antunes, que ganhou o Festival de Tiradentes e fechou a 6ª edição do Festival Olhar de Cinema, é um trabalho que faz jus ao proposto como olhar opositivo pela filósofa Bell Hooks. Aqui temos o olhar da mulher diante da construção da ideia de favela no Brasil. Quase sempre retratado com um olhar masculino – aquele do tráfico, da malandragem e do trabalho – em Baronesa tem-se a mulher que espera o companheiro encarcerado, a que cuida dos filhos, que faz o que pode diante da solidão e do abandono.


MANIFESTO
(Manifesto, 2016, 1h38)

Direção: Julian Rosefeldt
Elenco: Cate Blanchett, Ruby Bustamante, Ralf Tempel e outros

Um longa que nasce como instalação e se torna um belo mosaico sobre a construção dos discursos de manifestos durante todo o século XX. Cate Blanchett pode tudo que ela quiser e aqui encarna vozes e personagens aproximando manifestos do cotidiano da vida. Quem disse que arte e vida corriqueira não andam juntos? Julian Rosefeldt consegue fazer isso funcionar muito bem.


ARÁBIA
(Arábia, 2017, 1h37)

Direção: Affonso Uchoa, João Dumans
Elenco: Renan Rovida, Aristides de Sousa, Murilo Caliari e outros

Há algum tempo uma espécie de cinema-operariado vem se construindo diante das crises que se alastram pelo mundo. O filme de João Dumans e Affonso Uchoa, que levou calango esse ano em Brasília, dialoga muito bem com o que os irmãos Dardenne fazem há alguns anos, por exemplo. Um operário de uma fábrica sofre um acidente e nos deparamos com a ideia de que ele é alguém, tem sua história, sonhos e planos. Quem quer ouvir a história desse João ou José? Quanto importa as vidas da mão-de-obra explorada? Arábia é um ótimo filme sobre as histórias não contadas e que, consequentemente, são as que mais incomodam.


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Sobre Emanuela Siqueira
Formação em Letras mas é multitask por opção. Cinema, Literatura, Feminismo, Cultura Livre, Música barulhenta, Quadrinhos e Tradução definem um pouco. Tem fé em Darren Aronofsky e acredita em vida atrás das telas.