QpQ Resenha | O Último Metrô

“O Último Metrô” reflete a arte e a vida da classe artística na França ocupada pelos nazistas

No começo dos anos de 1980, o cineasta francês François Truffaut entrava para a fase final de sua carreira. Falecido em 1984, ele andava próximo de um estilo mais americano de roteiro, porém com uma cinematografia muito própria, construída ao longo da carreira. O Último Metrô, que abre a década, é um filme sobre um momento específico do passado: a ocupação nazista em Paris, no começo dos anos de 1940. O título dá conta do toque de recolher imposto pelos alemães: um sinal era dado na cidade e o último metrô partiria, fazendo os moradores da cidade correrem para voltarem para suas casas.

Marion Steiner (Catherine Deneuve) comanda o Theatre Montmartre, casa de seu marido, o importante dramaturgo, Lucas Steiner (Heinz Bennent). Com a ocupação nazista, Lucas anuncia exílio fora da França mas, na verdade, continua morando no porão do teatro. No recorte do filme a companhia se prepara para uma nova peça e contrata um ator famoso do momento, Bernard Granger (Gerard Depardieu), que vinha do Grand Guignol. Relações de afeto e atração se desenvolvem, enquanto a caça aos judeus corria solta pela cidade.

O Último Metrô tenta unir o macro e o microcosmos do cenário nazista na Europa. Os judeus eram, literalmente, caçados em todo tipo de situação por onde os alemães chegassem. No caso das artes – e em Paris isso ficava muito evidente – o fechamento de teatros, museus e livrarias era feito de forma deliberada, com a participação de propagandas falaciosas, vindas de supostos críticos de arte. Enquanto o enredo percorre as façanhas de galanteio do personagem de Depardieu, no porão do teatro, Lucas escuta o rádio com seus discursos de ódio e tenta escrever mais peças de teatro. Essa dualidade entre os homens da vida de Marion tenta se desenvolver durante o longa, sem muito proveito ou força. A beleza do filme está mais na direção de arte, fotografia e nos planos fechados que remontam o cinema da época retratada.

Truffaut também tenta trazer ao roteiro a efemeridade das paixões do cinema mais clássico, à la Casablanca, porém, felizmente, o lado político fala mais alto. Temas como homossexualidade, grupos de resistência ao nazismo e relações de poder durante a Segunda Guerra aparecem com mais força do que o núcleo romântico, que pouco convence. O vermelho e as cores quentes – tão bem explorados pelo diretor, como na adaptação Fahrenheit 451, de 1966 – funcionam muito bem para trazer a dualidade da cor tanto sobre o fantasma do nazismo, quanto para a paixão pela arte ou entre amantes.

Muito provavelmente, como filme clássico na 8ª edição do My French Film Festival não podia vir em tão excelente momento. A primeira cena do longa é Bernard Granger abordando uma mulher na rua, sendo muito insistente, garantindo que ele se apaixonou ao vê-la. No meio do filme descobrimos algo sobre essa mulher que nos faz questionar o quão inoportuno pode ser essa situação de assédio. Quase quatro décadas depois da filmagem do longa, uma das estrelas do filme, Catherine Deneuve, fez considerações polêmicas sobre as ideias de consentimento e assédio sexual. Sendo que a sua personagem, com forte protagonismo, é uma mulher linha dura e muito certa de seus desejos e ambições, um discurso como o que a atriz francesa fez mostra que, ainda bem, a arte é o que permanece, para além de seus personagens. Assim como é em O Último Metrô, Truffaut aborda uma série de temas que vão além dos seus personagens, fazendo com que o cinema fale por si mesmo.

Nota:

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Sobre Emanuela Siqueira
Formação em Letras mas é multitask por opção. Cinema, Literatura, Feminismo, Cultura Livre, Música barulhenta, Quadrinhos e Tradução definem um pouco. Tem fé em Darren Aronofsky e acredita em vida atrás das telas.