QpQ Resenha | Antes do Fim do Verão

“Antes do Fim do Verão” é um road documentário sobre a condição do estrangeiro, a amizade e o pertencimento

O gênero do road movie foi eternizado por filmes em que seus personagens encontram respostas através da estrada, numa espécie de filosofia do ir. Sair do lugar comum, da rotina, celebrar a vida, seja como for a estrada é uma metáfora para alguma resposta divina. Em um híbrido de documentário com ficção Antes do Fim do Verão, realizado por Maryam Goormaghtigh, usa o gênero para colocar em pauta não apenas a noção de espaço como filosofia, mas também a condição do estrangeiro refletindo sobre pertencimento justamente onde o território é inconstante.

Arash, Hossein e Ashkan são três amigos iranianos que vivem em Paris. Arash está prestes a voltar para o país natal pois se sente sozinho na capital francesa e se acha incapaz de fazer amigos. Em um ímpeto, os outros dois propõem uma viagem de verão pela França para poderem ter histórias juntos no país com o amigo que vai embora. Na verdade, Hossein e Ashkan querem convencer Arash a ficar e veem na aventura uma boa possibilidade para isso. Rodando pelo interior e litoral da França os três acampam, nadam, encaram chuva e sol juntos. Mas não é apenas as mudanças climáticas e geográficas ao longo da estrada que coordenam a viagem, acima de tudo são os diálogos travados entre os três que é a grande cereja do bolo no roteiro de Antes do Fim do Verão.

Os três conversam entre si na língua materna, falam de amor e da vida. Onde poderia ser uma tediosa viagem de três homens em pleno verão francês, acaba se tornando uma ode à amizade e à sensibilidade desenvolvida nessa relação. Mesmo quando falam do interesse em mulheres, Arash, Hossein e Ashkan se mostram suscetíveis, inseguros reflexivos, são pessoas comuns diante da vida e não precisam provar a sua masculinidade ou papel social. Como homens estrangeiros eles também são o outro nessa lógica e Maryam Goormaghtigh constrói os personagens de forma bastante autêntica, tirando do senso comum vários padrões tradicionais.

Antes do Fim do Verão é uma trajetória dentro de outra, é também sobre estar em movimento para se encontrar. Com o decorrer da viagem os cenários da França se confundem com o Irã, principalmente quando o trio conversa sobre a ambiguidade de amar – e sentir falta – do país de origem, porém aceitar que a liberdade não se encontra mais lá. É interessante como o diálogo entre eles é transparente, sempre há silêncio enquanto o outro fala, mesmo quando as conversas são regadas a cerveja e música.

Uma das maiores belezas da direção e roteiro de Maryam Goormaghtigh é sair do lugar comum, seja na representação do estrangeiro ou do homem. Ela torna a França um vasto território que serve de lar e caminho para qualquer um, passageiro ou residente. Antes do Fim do Verão se desenvolve e alcança seu clímax, mas, antes de tudo, faz o espectador ouvir e prestar a atenção no outro.

Nota:

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Sobre Emanuela Siqueira
Formação em Letras mas é multitask por opção. Cinema, Literatura, Feminismo, Cultura Livre, Música barulhenta, Quadrinhos e Tradução definem um pouco. Tem fé em Darren Aronofsky e acredita em vida atrás das telas.