QpQ Resenha | Me Chame Pelo Seu Nome

Depois de muitos anos no armário, o cinema LGBTQ+ finalmente vem ganhando mais força

Uma coisa é certa: depois da vitória de Moonlight: Sob a Luz do Luar no Oscar do ano passado, muitas das produções LGBTQ+ vão ganhar força e espaço no meio cinematográfico. Os tempos são outros e viver no armário não compensa mais, porque o público consumidor desses produtos cresceu e o mundo, felizmente, está menos careta e preconceituoso do que em décadas passadas, onde um O Segredo de Brokeback Mountain não conseguia levar o prêmio principal da noite, mesmo tendo muito potencial para isso, e um Filadélfia nem indicação tinha.

Me Chame Pelo Seu Nome, dirigido por Luca Guadagnino (Um Mergulho no Passado) e estrelado pelos lindos Armie Hammer (O Agente da U.N.C.L.E.) e Timothée Chalamet (Interestelar), é uma produção ítalo-americana/brasileira que tem tudo para ter muitos prêmios no currículo. A narrativa do longa se passa nos anos 80 e conta a história de Elio, um garoto de 17 anos extremamente inteligente que conhece Oliver, um acadêmico que veio passar o verão na sua casa para ajudar seu pai com pesquisas em troca de férias sossegadas na bela paisagem italiana. Elio nunca gosta dos visitantes que seu pai leva para sua casa, mas por Oliver o sentimento vai ser diferente…

A sensação que tenho ao começar a escrever sobre este filme é o medo de que eu possa estragar a experiência do espectador, justamente por não conseguir exprimir em palavras o quão linda essa história é. Impressionante de várias maneiras, o romance de Elio e Oliver é doce, mágico, tem tons de descoberta e é encantador demais, ao ponto de nos conectarmos com a história sentindo a troca de afeto, torcendo pelo casal e amando os diálogos sensacionais colocados em cena.

Timothée se mostra um ótimo ator, dando tom ao filme e deixando o espectador sentir o que ele está sentindo, quase que em primeira pessoa. As emoções passadas por ele vão do amor à culpa em questão de segundos e a gente sente isso no olhar do personagem. Há um plano-sequência com ele de cair o queixo, onde Elio deixa transparecer as emoções e não perde o fio por um momento sequer.

Armie é o complemento esperado pelo público. É com ele que o filme dá seus melhores passos, já que tudo se enche de vida com a presença de Oliver (e Elio odeia admitir isso). O entrosamento desses dois personagens vai se dando de forma gradativa e, ao meio do filme, nós já estamos mais do que apaixonados por eles.

Nós também temos personagens secundários muito bons, mas o grande rouba-cena aqui é o pai de Elio, interpretado pelo excelente Michael Stuhlbarg. O monólogo atuado por ele é extremamente emocionante e genuíno, além de ter e ser o que todo filho espera de um pai.

Agora vamos às cenas. A fotografia delas é o que já esperamos de um filme que se passa na Itália: maravilhosa. A construção e ambientação desses lugares são incríveis e algumas cenas específicas mexem MUITO com o espectador, principalmente a que envolve o pêssego.

O diretor Luca Guadagnino cria uma narrativa excelente, misturando muitos elementos cênicos ao seu dispor, mesmo com o baixo orçamento do filme. Inclusive, Me Chame Pelo Seu Nome foi filmado em película 35mm, algo que o cinema digital tende a esquecer e abandonar. Filmar apenas em película faz com que a direção tenha que ser precisa para conseguir extrair toda a emoção necessária dos atores, uma vez que não existe a opção de gravar por cima se o conteúdo não ficar bom (diferente do digital, que o diretor pode fazer quantos takes achar necessários sem se preocupar com o orçamento). Luca sabe muito bem construir o clima e fazer com que todos os atores se saiam bem juntos. Os personagens são marcantes e eu me arrisco a dizer que os atores serão muito lembrados por esses papeis específicos.

O filme também se sai muito bem no roteiro, já que a adaptação do livro para as telas está bem agradável e os elementos que foram alterados ficaram, em sua maioria, melhores ou mais condizentes com a narrativa cinematográfica. Muitos pontos para o roteirista James Ivory (Uma Janela Para o Amor).

A trilha sonora é apaixonante, tanto que o filme acabou e eu já fui correndo pro Spotify procurar o álbum com as canções. Mistery of Love é incrível e também merecia muito receber algum prêmio.

Agora vamos às considerações finais. Toda a parte técnica é feita com maestria e isso se deve ao fato de termos uma equipe bem engajada e um elenco primoroso. É preciso dizer que o longa é muito importante para o público em questão e cumpre muito bem o seu papel, por mostrar que independente da orientação sexual dos protagonistas, uma história de amor merece sim ser contada às massas e levada às grandes telas. Por falar em história, acho que esse é um dos filmes mais lindos sobre o primeiro amor. Toda a doçura e poesia vinda daqui enche a gente de alegria e acaba nos renovando, mesmo quando nossos corações estão cheios de tristezas, mágoas e outras coisas para desacreditar.

“Call me by your name and i’ll call you by mine”.

Nota:

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Sobre Bira Megda
Publicitário em formação, é apaixonado por cinema desde pequeno. Entre suas paixões do mundo cinematográfico, as obras de Steven Spielberg e os romances estrelados por Audrey Hepburn se destacam facilmente (mas não que um filme sangrento dirigido pelo Tarantino seja dispensável). Além disso, ama escrever sobre o mundo pop e colecionar filmes e livros. Por último, mas não menos importante, respira e come tudo relacionado ao universo Harry Potter. P.S.: ele também acha estranho escrever sobre si mesmo em terceira pessoa.