QpQ Resenha | Sem Amor

“Sem Amor” é um retrato humano de frieza, dor e separação

Existem filmes que fazem você se sentir bem. Existem filmes que fazem você refletir. E existem filmes que fazem você ir de encontro com as mais pesadas emoções que você guarda lá dentro de si. Sem Amor é esse tipo de filme: frio, cru e brutal. Mas como representante de uma arte, o filme é belíssimo, e merecedor de representar a Rússia nos maiores prêmios que o odiado ocidente pode oferecer: Cannes, Globo de Ouro e Oscar. O próprio percurso que Sem Amor percorre por aqui é quase uma metáfora da própria história que é contada no filme.

O filme conta a história de um casal que vive um difícil processo de separação. As brigas são intensas e frequentes, o que acaba influenciando negativamente o filho de 12 anos do casal. Em uma dessas brigas violentas, o menino em desespero acaba fugindo de casa. O casal agora é forçado a se unir temporariamente para encontrar o garoto. A culpa, o rancor e as mágoas não são curadas e nem mesmo esquecidas durante a busca, o que intensifica ainda mais o título do filme.

Sem Amor nasceu dentro da mãe Rússia, mas que por conflitos internos preferiu fugir e brilhar longe do ninho. Assim como o menino russo, Sem Amor é o grito de fuga de um país que perde os valores tradicionais para experimentar outros tipos de valores, que aos poucos emergem junto com uma nova classe média. Esse choque de tradições e novas realidades tem incomodado o governo do país, o que tornou o filme uma obra mal quista em solo russo.

Assim como no Brasil, o cinema na Rússia ainda depende bastante de apoio governamental. Entretanto, Sem Amor não conseguiu acesso de recursos públicos para ser realizado, a razão para isso é que o governo não espera pagar para a realização de um filme que denigre o país no exterior. O casamento tradicional de cinema político e governo enfrenta sua separação na Rússia contemporânea, e Sem Amor é o filho mais recente desse desamor.

Toda essa desconfiança a respeito do filme é por conta de seu diretor, Andrey Zvyagintsev, que ganhou status de “perigoso” após seu último filme Leviatã. No filme, Zvyagintsev explora a decadência do homem e a corrupção do governo, metáforas de uma Rússia moderna. Obviamente, o governo russo não iria contribuir para que o diretor conseguisse expor o país a mais um novo “vexame” diante o ocidente. Mas o ocidente adora ver a Rússia metida nesses “vexames”, e ajudou Zvyagintsev financeiramente para realizar Sem Amor.

Que situação complicada você se meteu, não é mesmo Zyagintsev? Mesmo assim estou amando, porque adoro barraco, principalmente se ele for político. Continue assim! O ocidente está amando! E no próximo pegue mais pesado nas críticas, porque tá pouco! Queremos metáforas mais cruéis!

Nota:

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Sobre Viní­cius Gratão
Geek de carteirinha, apaixonado por quadrinhos, games, animes e tecnologia. Formado em cinema, amo particularmente os clássicos e os westerns à  italiana. Acredito em tudo, inclusive em Tex Willer.