QpQ Resenha | Lady Bird – A Hora de Voar

Greta Gerwig escreve e dirige ficção autobiográfica que nos faz revisitar nossas ações e pensamentos adolescentes

A nostalgia é um elemento poderoso no cinema. Aquele que consegue contar bem uma história de tema universal certamente marca seu lugar no patamar dos melhores dessa arte. Greta Gerwig é a mais nova integrante desse seleto grupo de diretores de Hollywood. Em Lady Bird – A Hora de voar, Greta Gerwig empresta um pouco de sua história à protagonista, Christine “Lady Bird”, interpretada pela excelente Saoirse Ronan (pronuncia-se Ser-sha). Aos 17 anos, Lady Bird mora em Sacramento, Califórnia, mas sonha em estudar em Nova York, uma cidade repleta de cultura, arte, oportunidades e sofisticação, visão essa que sua mãe, Marion (Laurie Metcalf), definitivamente não compartilha, definindo como longe, perigosa (eram os anos 90) e fora do orçamento – ou seja, um grande e gordo NÃO.

Sonhadora, determinada, impulsiva, às vezes ingênua e com litros de autoconfiança, Lady Bird trava uma guerra fria com a mãe em relação às expectativas de sua vida. Nada mais normal nessa idade. Mesmo assim, em retrospecto, é inevitável sentir certa vergonha alheia quando, no meio de uma briga, Lady Bird questiona sobre sua avó e é dada a resposta “Minha mãe era uma alcoólatra abusiva”. Embora os outros personagens mostrados no filme, próximos a Lady Bird – como Julie (Beanie Feldstein), sua melhor amiga, os crushs da sua adolescência e até mesmo seu pai, Larry (Tracy Letts), com o drama bem realista – sejam interessantes, a relação principal é de mãe e filha, sem dúvida alguma.

Quantas vezes não fomos egoístas o suficiente a ponto de dramatizar todo e qualquer acontecimento que não segue a nossa vontade, sem perceber que a vida vai nos ensinando a saber lidar com problemas ou expectativas altas, a administrá-las de forma melhor, sem ferir os sentimentos dos outros no processo? Quantas vezes nossa mãe avisou que “não é bem assim” ou assado, e tudo que conseguíamos pensar era o quanto estava contra nós? Ahhh, a adolescência, seu nome é umbigo. Renato Russo já dizia que culpamos nossos pais por tudo e que isso é um absurdo. Você tinha razão, Renato. E a mãe de Lady Bird é outra cartada de mestre: sensata, realista ao extremo, ama a filha, mas já se contentou com as decepções da vida, os sonhos perdidos e o duro que é preciso dar para sobreviver e ainda criar seus filhos.

Não bastasse isso tudo, somos presenteados com uma bela trilha sonora, mergulhando no cenário dos anos 2000, com Dave Matthews Band embalando a fossa, Justin Timberlake animando a festa – e os amassos –, Alanis Morrissette tocando no carro (não é a primeira vez que Saoirse exalta Alanis em cena). e referências pop maravilhosas. Não deixe de conferir esse filme simples, universal e hilário.

Nota:

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Sobre Marcela Sachini
Libriana (portanto, indecisa), sou viciada em seriados (inclusive sul-coreanos), apaixonada por idiomas, música e literatura. Moraria em Notting Hill com toda a certeza, só esperando um convite do Henry Cavill para isso. Fui ao cinema pela primeira vez com 6 anos. Foi amor à primeira vista, desde então não parei mais.