QpQ Resenha | Arábia

"Arábia" é um filme que engrossa o coro em favor de um cinema-proletário, sobre as vidas consumidas pelas estatísticas

O cinema tem o poder – a técnica e o trabalho com a forma – de trazer partículas e pedaços de vida, dando ritmo e enquadramentos próprios para essas cenas cotidianas. Seria desmerecedor afirmar que o cinema brasileiro, desde sempre, não teve uma preocupação em retratar as metáforas de uma realidade encoberta quase sempre pelos delírios que a ficção pudesse proporcionar. Seja no cinema de Luís Sérgio Person, Adélia Sampaio, Rogério Sganzerla ou Suzana Amaral, a matéria humana que circula pelas ruas, que opera máquinas grandes ou pequenas e é precarizada pelo sistema, foi desenvolvida na tela do cinema. O longa Arábia, de João Dumans e Affonso Uchoa, faz coro com os antigos para que a nova produção que trata do operário, uma figura comumente usada como coadjuvante – e demarcado por uma narrativa sem lugar de fala – seja agora colocada em protagonismo.

O espectador conhece Cristiano (Aristides de Souza) através da sua rotina calada e banal de trabalho numa metalúrgica, os horários confundem o relógio biológico e o lugar onde mora também é precarizado. Na mesma cidade há o núcleo familiar de André (Murilo Caliari) e seu irmão mais novo que são, constantemente, negligenciados pela família de classe média, enquanto os pais rodam o mundo. A existência de André e Cristiano se complementam quando o adolescente encontra o diário do trabalhador, cujo o narrador acreditava ser desinteressante, e se depara com uma realidade corriqueira e diferente da sua. O fato do metalúrgico ganhar voz pela sua escrita, enquanto seu corpo permanece inerte em uma cama de hospital, tem uma força muito importante para a narrativa do filme. Através de uma atividade no grupo de teatro da empresa – que muitas implantam a contragosto – é que o trabalhador se dá conta que pode passar a limpo a sua trajetória, percebendo a sua vida como uma construção, uma luta repleta de erros, acertos e decisões.

É lendo um lead em um dos jornais brasileiro, de maior acesso na internet, que o contexto e construção de Arábia supera a ficção e dialoga de muito perto com a realidade de uma maioria. Afirmando, e focando o texto nesse ponto, que o filme trabalha com um ex-detento, passando a ficha criminal do ator principal, a matéria pouco fala do filme, do cotidiano sufocante de um trabalhador da indústria pesada e sua luta diária contra seus próprios demônios como depressão, melancolia e ansiedade. A banalização da matéria que ressalta, antes uma condição marginalizada de um ator do que o trabalho construído no filme, diz muito sobre o desinteresse por essas vidas colocadas agora em tela por filmes como Pela Janela, de Caroline Leone e Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé, ou mesmo o cinema dos irmãos Dardenne, que dialoga tão de perto com Arábia. Não são mais as vidas consideradas brilhantes, vistas de um ponto de referência questionável, e longínquas do cotidiano das massas que entram em tela, mas sim histórias desgastadas pelo cotidiano, pela força do sistema, com suas glórias e derrotas, tão próximas das vidas do lado de cá.

É por um viés do incômodo e da empatia que Arábia expõe e denuncia. Talvez a vida de Cristiano não diga nada para muita gente, porém é a sua existência e singularidade que diz, na verdade. Em uma cena rápida há uma placa, na entrada da empresa, que conta há quantos dias não acontece um acidente de trabalho, ironicamente o protagonista entrará para a estatística. Quem são esses números, que vida tiveram e levam para além das fotos sérias de suas carteiras de trabalho? Quanto sofreram, que pessoas amaram e que sonhos tiveram? Pois se o cinema é experiência, que seja através da alteridade que possamos conhecer essas histórias. O diário de Cristiano só pode fazer sentido, e de fato existir, se alguém o ler, conhecer a sua história e tirá-la do anonimato. A massa proletária, que preenche as ruas, os ônibus, trens e metrôs logo cedo não é amorfa e bicolor e por isso Arábia entra para um rol de um cinema de guerrilha, fazendo coro para os que contam sobre os excluídos da história, como diria Michelle Perrot. Um filme obrigatório.

Nota:

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Sobre Emanuela Siqueira
Formação em Letras mas é multitask por opção. Cinema, Literatura, Feminismo, Cultura Livre, Música barulhenta, Quadrinhos e Tradução definem um pouco. Tem fé em Darren Aronofsky e acredita em vida atrás das telas.