QpQ Resenha | Nem Juíza, Nem Submissa

“Nem Juíza, Nem submissa” é um filme politicamente incorreto, estranho e ao mesmo tempo interessante, como a vida deve ser

Sabemos que o cinema francófono é famoso por ser bem avant garde quanto ao quesito roteiro, direção e edição. Há um certo incômodo em permanecer dentro de um conceito engomadinho de arte burguesa por um tempo muito longo. Podemos dizer que existe um apetite crítico pelo olhar fílmico. E esse apetite quase sempre insaciável se estende também para as produções televisivas, feitas em séries e com menos glamour, mas não menos criativas.

Em meados dos anos 80, surgia na Bélgica uma série documental chamada Strip-Tease, que propunha revelar tópicos que outros gostariam de manter escondido. O jargão do programa era Strip-Tease: o programa que vai te despir. E de fato despia! Strip-Tease propôs um tipo de documentário pouco utilizado, onde os assuntos falavam por si só, sem a intromissão de um locutor.

Na época, era muito comum documentários com narradores (até hoje). Esse tipo de documentário guia a compreensão do público para uma conclusão fácil. Não é preciso pensar muito para entender a narrativa. O documentário sem narrador, intercalando cena após cena, exige mais do público. É preciso raciocinar um pouco mais, ser crítico. E para isso, os temas deveriam incomodar. O programa fez sucesso, e Nem juíza, Nem Submissa é o primeiro longa metragem documentário inspirado no Strip-Tease belga.

A estranheza originária dos programas também está no filme, onde o público fica pensativo sobre como diabos o documentário foi feito. É um daqueles filmes que você não sabe se o documentário é de fato um documentário. As situações apresentadas são capazes de fazer rir e de incomodar, todas captadas em seu próprio fluxo.

No filme, Anne Gruwez é uma juíza excêntrica que trabalha em Bruxelas, supervisionando investigações não resolvidas. O sucesso do filme se deve muito à direção, que permite uma narrativa crua e sem censura. É um documentário observacional bem realizado, onde o bom e mau gosto se encontram de forma aceitável. Para você que gosta de obras diferentes, super recomendo Nem Juiza, Nem Submissa.

Nota:

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Sobre Viní­cius Gratão
Geek de carteirinha, apaixonado por quadrinhos, games, animes e tecnologia. Formado em cinema, amo particularmente os clássicos e os westerns à  italiana. Acredito em tudo, inclusive em Tex Willer.