Surda

(2025) ‧ 1h39

07.05.2026

Entre o silêncio e os afetos

Surda encontra sua força justamente naquilo que evita transformar em espetáculo. Em vez de construir um drama exagerado sobre superação, o filme de Eva Libertad prefere observar os pequenos atritos do cotidiano, aqueles quase invisíveis para quem nunca precisou viver em um mundo pensado para os outros. A maternidade surge não como idealização, mas como uma experiência cheia de inseguranças, cansaço e isolamento, especialmente para alguém constantemente obrigada a adaptar sua própria existência.

A protagonista Ángela, interpretada por Miriam Garlo, carrega o filme com uma atuação de enorme delicadeza. Há uma naturalidade impressionante na maneira como ela expressa frustração, amor e exaustão sem precisar recorrer a grandes explosões emocionais. O roteiro entende que muitas dores aparecem justamente nos silêncios, nos olhares interrompidos e nas conversas das quais ela acaba excluída sem que ninguém perceba imediatamente.

O relacionamento entre Ángela e Héctor também ganha complexidade ao fugir de soluções fáceis. Héctor não é retratado como um marido cruel ou negligente; pelo contrário, ele parece genuinamente amoroso e presente. É justamente isso que torna os conflitos mais interessantes. Surda mostra como preconceitos e exclusões podem surgir até mesmo dentro de relações afetuosas, muitas vezes através de gestos automáticos e aparentemente inocentes.

Existe um cuidado muito grande na construção sonora do filme. Em determinados momentos, a direção reduz drasticamente os sons ao redor para aproximar o espectador da experiência da protagonista. Não é um recurso usado de maneira sensacionalista, mas sim como ferramenta de imersão emocional. A sensação de desconexão se torna palpável, principalmente nas cenas em que Ángela percebe que o mundo continua funcionando ao redor dela sem incluí-la completamente.

Ao mesmo tempo, o longa evita transformar sua personagem em símbolo. Ángela pode ser sensível, irritadiça, afetuosa ou até injusta em alguns momentos. Essa humanidade faz diferença. O filme compreende que representatividade também passa por permitir que personagens existam além da função de “lição de vida”, algo que muitos dramas semelhantes ainda insistem em simplificar.

Se há uma fragilidade, talvez esteja no ritmo por vezes contemplativo demais. Algumas passagens parecem prolongar situações já compreendidas emocionalmente pelo espectador, fazendo com que a narrativa perca um pouco de intensidade em determinados trechos. Ainda assim, mesmo nesses momentos, o filme nunca perde honestidade ou sensibilidade.

Surda é um drama íntimo e profundamente empático sobre comunicação, pertencimento e maternidade. Sem recorrer ao melodrama, o longa transforma experiências cotidianas em algo emocionalmente poderoso, convidando o público a enxergar as barreiras invisíveis que tantas vezes passam despercebidas. É um filme silencioso em aparência, mas que encontra muita força justamente no que escolhe não gritar.

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AUTOR

Felipe Fornari

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