Os Amantes Passageiros

(2013) ‧ 1h30

Um voo turbulento pela liberdade e pelo excesso

Felipe Fornari

Em Os Amantes Passageiros, Pedro Almodóvar retorna ao espírito mais irreverente de sua primeira fase, apostando em uma comédia escancarada, cheia de exageros, sexualidade e personagens presos em situações absurdas. Depois de obras mais densas e sombrias como A Pele que Habito, o diretor parece interessado em recuperar uma energia mais leve, mesmo que o resultado não tenha o mesmo impacto de seus trabalhos mais marcantes.

A trama coloca um avião em uma situação limite quando uma falha técnica impede o pouso e obriga a aeronave a ficar circulando pelo céu espanhol. Enquanto os passageiros da classe econômica são sedados para evitar pânico, aqueles que estão na classe executiva começam a revelar seus segredos mais íntimos. O espaço fechado do avião funciona como um palco perfeito para Almodóvar explorar máscaras sociais e desejos escondidos.

O grande interesse de Os Amantes Passageiros está justamente nessa ideia de que uma situação extrema pode libertar pessoas que passam a vida tentando controlar suas próprias vontades. Quando a possibilidade da morte aparece, os personagens deixam de lado convenções, status e aparências. O medo se transforma em uma espécie de autorização para que todos assumam quem realmente são.

Como em outros momentos da filmografia do diretor, o exagero é uma ferramenta para criar crítica. Os comissários de bordo, interpretados por Javier Cámara, Raúl Arévalo e Carlos Areces, são construídos como caricaturas, enquanto os passageiros representam diferentes tipos de hipocrisia e contradições. Almodóvar brinca com religião, política, poder e sexualidade, mas nem sempre encontra o equilíbrio ideal entre provocação e humor.

A presença de rostos conhecidos do universo do cineasta também reforça a sensação de reencontro com uma fase anterior de sua carreira. Participações de nomes como Penélope Cruz e Antonio Banderas, além da presença de Cecilia Roth, ajudam a conectar o filme à trajetória de Almodóvar e ao seu fascínio por personagens que vivem à margem do comportamento considerado aceitável.

Apesar de algumas ideias interessantes, Os Amantes Passageiros acaba dependendo demais do próprio caos que cria. As situações absurdas se acumulam, mas nem todas conseguem provocar o mesmo efeito cômico ou emocional. A energia transgressora está presente, mas muitas vezes parece mais uma repetição de elementos que o diretor já havia explorado com mais força anteriormente.

Ainda assim, o filme funciona como uma obra curiosa dentro da carreira de Almodóvar, uma celebração da liberdade, do desejo e da quebra de regras. Mesmo sendo uma comédia menor quando comparada aos grandes momentos do cineasta, Os Amantes Passageiros mantém seu encanto justamente por abraçar o absurdo e lembrar que, diante do caos, talvez a única saída seja rir de nós mesmos.

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