Em Um Casal do Barulho, Alfred Hitchcock se afasta quase completamente do suspense para experimentar a screwball comedy, gênero que transforma romances turbulentos em batalhas marcadas por diálogos rápidos, orgulho ferido e situações absurdas. David e Ann Smith estão casados há três anos e parecem ter desenvolvido regras próprias para sobreviver às frequentes discussões. Tudo muda quando descobrem que, devido a um problema burocrático, sua união nunca foi legalmente válida. O que poderia ser resolvido com uma nova cerimônia torna-se imediatamente uma disputa para descobrir qual dos dois precisa mais do outro.
A melhor ideia do roteiro está justamente em transformar uma formalidade jurídica em teste para um relacionamento. Pouco antes da descoberta, Ann pergunta a David se ele voltaria a se casar com ela caso pudesse escolher novamente. Ele responde que não, embora afirme amá-la, porque sente falta da liberdade de solteiro. Quando surge a oportunidade concreta de provar o contrário, David demora demais para agir. Ann interpreta sua hesitação como confirmação daquela resposta e decide que, se tecnicamente voltou a ser solteira, talvez seja hora de aproveitar a situação.

Carole Lombard compreende perfeitamente o registro necessário para a personagem. Sua Ann alterna irritação, provocação e afeto sem perder o domínio das situações, utilizando a própria independência como instrumento para atingir David. Robert Montgomery responde com uma atuação igualmente física, especialmente quando o personagem abandona qualquer dignidade para reconquistá-la. Os dois funcionam melhor quando estão competindo do que quando o roteiro tenta convencer sobre o romance entre eles, pois o verdadeiro motor da relação parece ser a satisfação que encontram em irritar um ao outro.
A entrada de Jefferson Custer, amigo e sócio de David, oferece ao casal o terceiro elemento necessário para prolongar o conflito. Ann começa a sair com ele, e aquilo que inicialmente parece apenas uma estratégia para despertar ciúmes ganha alguma possibilidade de se tornar sério. Ainda assim, o triângulo amoroso nunca produz consequências realmente imprevisíveis. Desde cedo, Um Casal do Barulho deixa evidente que David e Ann continuam emocionalmente presos um ao outro, fazendo com que os demais pretendentes funcionem principalmente como obstáculos cômicos até que ambos admitam aquilo que o público já sabe.
Hitchcock conduz tudo com competência, mas sua personalidade aparece apenas ocasionalmente. A visita ao decadente restaurante onde David e Ann costumavam se encontrar possui uma comicidade melancólica interessante, enquanto o passeio pela Feira Mundial de Nova York e a sequência em que personagens ficam presos em uma atração elevada permitem algum humor visual. Ainda assim, é curioso observar um diretor tão associado ao controle da informação trabalhando em uma história na qual praticamente não existem segredos. Aqui, a expectativa não depende de descobrir o que acontecerá, mas de acompanhar os caminhos cada vez mais complicados utilizados para chegar a uma conclusão previsível.

Essa limitação se torna mais perceptível na segunda metade. A viagem para uma estação de esqui oferece espaço para novas provocações, fingimentos e tentativas desesperadas de David recuperar Ann, mas o material começa a parecer esticado além de sua capacidade. Algumas situações são genuinamente engraçadas, enquanto outras dependem demais da insistência dos personagens em evitar uma conversa que resolveria tudo rapidamente. O problema não está na artificialidade, natural dentro da screwball comedy, mas na falta daquela escalada de caos que faria o absurdo se tornar progressivamente mais irresistível.
Um Casal do Barulho permanece, assim, como uma curiosidade agradável dentro da filmografia de Hitchcock, especialmente por revelar o cineasta trabalhando em território tão distante daquele que consolidaria sua reputação. Lombard e Montgomery sustentam a comédia com energia suficiente para superar boa parte das fragilidades do roteiro, e existe certo prazer em observar um casamento sendo desmontado burocraticamente apenas para que seus integrantes descubram se desejam reconstruí-lo emocionalmente. O resultado diverte sem alcançar a inventividade dos melhores exemplares do gênero, funcionando mais como um desvio simpático na carreira do diretor do que como uma demonstração particularmente marcante de seu talento.







