Viva Marília

(2025) ‧ 1h27

Marília Pêra: uma operária da arte brasileira

Daniela de Oliveira Pires

O documentário Viva Marília retrata uma parte da trajetória da atriz, cantora e bailarina Marília Pêra (1943–2015). Uma vida inteira dedicada à arte e à cultura brasileira recebe, enfim, o reconhecimento por meio da produção da Globo Filmes, GloboNews e Canal Brasil, dirigida por Zelito Viana e Esperança Motta, filha da atriz, e com roteiro de Nelson Motta, que foi casado com ela por 15 anos.

“A arte existe porque a vida não basta”, produção recente do diretor Zelito Viana em homenagem ao poeta e escritor Ferreira Gullar. A frase imortalizada pelo poeta também nos ajuda a compreender um pouco da dimensão da vida vivida com intensidade e entrega por Marília, a partir dos depoimentos de amigos, amigas e familiares, como Hebe Camargo, Marco Nanini, Nelson Motta, Jô Soares, Marília Gabriela e seus filhos, Guto, Esperança e Nina.

Nascida em uma família pobre, mas que fez da arte uma forma de sobrevivência material e subjetiva, Marília afirmava que “é preciso disciplina para lutar pelo que se quer”. Estreou ainda no ventre de sua mãe e, com apenas 19 dias de vida, já era figurante em uma peça de teatro. Arte e vida se confundem e se completam, pois não existiriam a filha, a mãe e a esposa sem a atriz disciplinada e dedicada às diversas formas de manifestação artística.

Não é exagero afirmar que Marília é parte do patrimônio cultural brasileiro. Os números são impressionantes: ao longo de uma longa semeadura, foram 60 anos de carreira, nos quais atuou em 49 peças, 29 novelas e mais de 20 filmes, recebendo cerca de 80 prêmios nacionais e internacionais.

De sua trajetória, é possível destacar alguns papéis inesquecíveis no teatro, no cinema e na televisão, como em Pixote, a Lei do Mais Fraco (1980), de Hector Babenco; Brega & Chique (1987), de Cassiano Gabus Mendes; O Primo Basílio (1988), de Daniel Filho; e Mademoiselle Chanel (2004), de Jorge Takla. Nesses trabalhos, deixou um legado de versatilidade, profundidade e reconhecimento, consolidado por mais de 80 prêmios nacionais e internacionais ao longo de uma intensa trajetória.

Ela percorreu com maestria todas as formas de expressão artística: foi do teatro à televisão, transitou da comédia ao drama, dos musicais ao cinema. Uma diva que fazia de suas dúvidas, angústias e preferências matéria-prima para sua arte e que transformava, por exemplo, o medo de cantar em instrumento a serviço da cultura brasileira. Uma verdadeira diva, que esbanjava elegância, atitude, glamour e imponência.

O documentário é narrado pela própria artista e conta com um acervo de imagens raras de sua vida pública e privada, retratando com maestria sua carreira na televisão, no teatro e no cinema, tendo como contexto as mudanças, os avanços e os retrocessos da sociedade brasileira entre as décadas de 1960 e 1980.

A produção recupera momentos marcantes de sua carreira e da trajetória política recente do país, como sua participação na peça de teatro Roda Viva, escrita por Chico Buarque e dirigida por José Celso Martinez Corrêa. Estreada em 1968, a peça tornou-se alvo de intensa e violenta perseguição durante a ditadura civil-militar (1964–1985). Em julho daquele ano, integrantes do grupo paramilitar Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiram o Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, destruíram o cenário e agrediram o elenco.

Mesmo com uma carreira consolidada na televisão e no cinema, Marília nunca deixou os palcos, sua origem mais remota e definitiva, seja atuando, dançando ou cantando lindamente. Uma operária do teatro que deixou uma marca indelével na cultura brasileira.

Viva Marília e seu legado, que descobriu, ao longo da vida, como ser um ser humano livre.

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