Vicentina Pede Desculpas

(2026) ‧ 2h28

A delicadeza de reconhecer a dor do outro

Felipe Fornari

Em Vicentina Pede Desculpas, Gabriel Martins parte de uma tragédia para construir uma história sobre algo muito mais difícil de compreender do que as circunstâncias de um acidente: a maneira como continuamos vivendo depois que a dor passa a fazer parte da nossa rotina. Quando Vicentina, uma professora aposentada de 75 anos, perde o filho em um desastre de ônibus que também vitima dezenas de pessoas, sua reação não é se esconder do mundo, mas procurar aqueles que foram atingidos pela mesma tragédia. Seu desejo de pedir desculpas pode parecer incompreensível, mas revela uma necessidade profundamente humana de encontrar algum sentido diante de uma situação irreparável.

Interpretada com enorme sensibilidade por Rejane Faria, Vicentina é uma protagonista que conquista justamente por não precisar explicar tudo o que sente. Existe uma dificuldade em organizar a própria dor, e a personagem parece encontrar nas visitas às famílias uma maneira de continuar caminhando quando já não sabe muito bem para onde ir. Sua iniciativa carrega uma contradição interessante: ela assume uma responsabilidade que não é necessariamente sua, como se a condição de mãe a obrigasse a responder pelos atos do filho. Ao mesmo tempo, há algo comovente nessa disposição de se aproximar de pessoas que têm todos os motivos para rejeitá-la.

A jornada pela cidade oferece ao filme a oportunidade de revelar diferentes maneiras de lidar com o sofrimento. Cada encontro apresenta uma reação particular, pois não existe uma fórmula para enfrentar a perda, muito menos um prazo para que a indignação dê lugar à compreensão. Algumas pessoas acolhem Vicentina, enquanto outras não conseguem ou não desejam aceitar sua presença. Essa diversidade impede que a narrativa transforme o perdão em uma obrigação moral e reconhece que a generosidade também precisa conviver com o direito de sentir raiva. Afinal, nem todo pedido de desculpas encontra espaço para ser recebido, e isso não diminui necessariamente a sinceridade de quem o oferece.

A repetição dos encontros, embora contribua para estabelecer o ritmo contemplativo da obra, também representa sua principal limitação. A estrutura episódica permite que conheçamos diferentes personagens e amplia a dimensão coletiva da tragédia, mas alguns momentos poderiam ser mais concisos sem comprometer a força do conjunto. Em certos trechos, a insistência em acompanhar o mesmo movimento emocional torna a experiência um pouco arrastada, especialmente considerando a duração do filme. Ainda assim, essa escolha tem uma justificativa temática: assim como o luto não se resolve de maneira imediata, a caminhada de Vicentina tampouco poderia oferecer respostas fáceis ou conclusões reconfortantes a cada parada.

É nesse percurso que Gabriel Martins demonstra novamente seu interesse pelas pessoas comuns e pelos espaços que costumam permanecer à margem das representações mais convencionais do Brasil. Belo Horizonte não funciona apenas como cenário, mas como um território de encontros entre indivíduos que compartilham determinadas dificuldades materiais sem necessariamente dividir as mesmas experiências ou opiniões. A tragédia reúne vidas que, de outra maneira, talvez nunca se cruzassem, e o filme dedica tempo para enxergar essas pessoas para além das manchetes. A fotografia de Leonardo Feliciano reforça essa proximidade ao privilegiar rostos, gestos e ambientes cotidianos, encontrando beleza na observação sem precisar transformar o sofrimento em espetáculo.

Rejane Faria é fundamental para que essa abordagem funcione. Sua interpretação encontra nuances na fala pausada, nos olhares e na maneira como Vicentina parece medir cada palavra antes de pronunciá-la. A personagem transmite fragilidade sem se tornar passiva, assim como demonstra determinação sem perder a delicadeza. O filme também ganha força ao não transformar a dúvida sobre as circunstâncias do acidente em um mistério convencional que precise ser solucionado. Mais importante do que estabelecer uma explicação definitiva é observar as consequências humanas de uma tragédia cuja dimensão não pode ser reduzida a uma única resposta. Essa recusa em oferecer certezas faz com que a história permaneça aberta a questionamentos que ultrapassam a experiência individual de sua protagonista.

Vicentina Pede Desculpas encontra sua maior força na ideia de que reconhecer a dor alheia já pode ser um gesto significativo, mesmo quando não existe possibilidade de consertar o que aconteceu. O pedido de perdão não devolve as vidas perdidas, não elimina a revolta e tampouco garante reconciliação. O que ele oferece é uma tentativa de aproximação em meio àquilo que poderia separar definitivamente as pessoas. Apesar de algumas repetições e de um ritmo que exige paciência, Gabriel Martins constrói uma obra tocante, sustentada pela humanidade de sua protagonista e pela confiança de que ainda é possível escutar quem pensa ou sente de maneira diferente. Em tempos nos quais a hostilidade parece ocupar todos os espaços, essa aposta na gentileza não soa ingênua, mas necessária.

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