Era uma Vez no Oriente Médio

(2026) ‧ 2h21

Era uma Vez no Oriente Médio e a humanidade em meio à guerra

Felipe Fornari

Uma cozinha pode parecer um lugar improvável para observar os horrores de um conflito armado, mas é justamente nesse espaço cotidiano que Era uma Vez no Oriente Médio encontra sua perspectiva mais interessante. Ao acompanhar um chef chinês que tenta reconstruir a própria vida em um país do Oriente Médio, o filme de Muye Wen transforma um restaurante em ponto de encontro de pessoas que, em circunstâncias normais, talvez jamais compartilhassem a mesma mesa. Quando a guerra chega, porém, aquele lugar de convivência passa a representar algo muito maior: um abrigo precário diante de uma violência que não poupa ninguém.

A história começa com uma proposta relativamente despretensiosa. Xu Fu, interpretado por Shen Teng, chega à fictícia Bahata em busca de estabilidade financeira, deixando para trás uma vida marcada por dívidas e problemas familiares. Entre desentendimentos com o proprietário do restaurante, crianças órfãs que perturbam sua rotina e a tentativa de adaptar sua culinária a um público diferente, o protagonista passa por situações que poderiam sustentar uma comédia leve. Essa atmosfera inicial é importante justamente porque permite conhecer os personagens antes que suas vidas sejam atravessadas por acontecimentos muito mais graves.

A mudança de tom acontece quando os bombardeios começam, e o longa demonstra que não pretende tratar a guerra apenas como pano de fundo para uma aventura. O humor continua aparecendo, mas passa a coexistir com cenas de destruição, medo e perdas que alteram profundamente a trajetória daqueles que acompanhamos. Embora alguns efeitos visuais não convençam inteiramente, a força emocional das consequências da violência compensa essas limitações. O filme compreende que o verdadeiro impacto de uma explosão não está somente no espetáculo da destruição, mas também no silêncio e no desespero que permanecem depois dela.

Um dos maiores méritos da produção está em sua abordagem política. Em vez de reproduzir uma narrativa em que um dos lados surge como herói incontestável, o roteiro apresenta soldados americanos, grupos extremistas e autoridades locais envolvidos em diferentes formas de brutalidade e exploração. Isso não significa estabelecer uma equivalência simplista entre todas as ações, mas mostrar como a população civil acaba presa em uma estrutura na qual interesses militares e disputas ideológicas valem mais do que vidas humanas. Ao observar o conflito de uma perspectiva externa àquela mais comum no cinema hollywoodiano, o longa amplia o debate sobre quem conta essas histórias e quais experiências costumam ficar em segundo plano.

Essa escolha também permite que o filme explore a maneira como a violência alimenta a própria continuidade da guerra. Pessoas inicialmente distantes do conflito são empurradas para situações extremas, enquanto crianças que deveriam encontrar proteção se tornam especialmente vulneráveis ao recrutamento e à radicalização. A transformação gradual de Seif, que começa como uma das principais fontes de irritação de Xu e acaba desenvolvendo uma relação de aprendizado com o cozinheiro, é particularmente significativa nesse sentido. O vínculo entre os dois oferece ao filme uma dimensão afetiva que impede a discussão política de se tornar apenas uma sucessão de acusações.

Shen Teng sustenta muito bem essa jornada, equilibrando o humor de um homem pragmático, que tenta encontrar uma saída para cada problema, com a vulnerabilidade de alguém que gradualmente percebe não ser possível permanecer indiferente ao sofrimento alheio. Jiang Qiming também se destaca ao interpretar Ma Junsheng, cuja postura inicialmente otimista dá lugar a uma compreensão mais dolorosa da realidade, sem que ele abandone completamente a empatia. A relação entre os personagens mantém o filme emocionalmente ancorado, enquanto o restaurante assume um significado que ultrapassa sua função comercial: alimentar passa a ser uma forma de sobrevivência, cuidado e resistência, ainda que nem sempre suficiente para proteger quem recebe aquela comida.

Mesmo com algumas coincidências narrativas que tornam a trajetória de Xu excessivamente conveniente em determinados momentos, Era uma Vez no Oriente Médio encontra força na imprevisibilidade brutal que define o destino de seus personagens. A alternância entre momentos de humor e acontecimentos devastadores pode parecer abrupta, mas também traduz a instabilidade de uma realidade em que a tranquilidade nunca está garantida. Mais do que um filme de guerra, esta é uma história sobre civis tentando preservar alguma humanidade quando todas as estruturas ao redor parecem trabalhar para destruí-la. Ao transformar uma refeição compartilhada em um gesto de esperança, Muye Wen entrega uma obra comovente, politicamente provocadora e consciente de que, em meio à guerra, sobreviver já pode ser uma forma de resistência.

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