Tár

(2022) ‧ 2h38

26.01.2023

"Tár": O preço da grandeza e a sombra da ambição

Em Tár, Todd Field constroi uma narrativa densa e desafiadora, um mergulho profundo na vida da renomada maestrina Lydia Tár, interpretada com precisão por Cate Blanchett. Diferente da maioria dos filmes atuais, que expõe minuciosamente o contexto e os detalhes de seus personagens, Tár desafia o público a decifrar Lydia por meio de fragmentos e nuances. Ao longo da obra, Field valoriza a paciência e a concentração do espectador, convidando-o a descobrir a complexa personalidade da protagonista de maneira orgânica, o que contribui para a intensidade da experiência.

A história não segue um enredo convencional, focando-se menos na trama e mais em desvendar as camadas da personalidade de Lydia. Field não esclarece cada detalhe sobre o passado e as motivações da maestrina, o que é uma escolha acertada, já que o objetivo é provocar uma reflexão sobre o que significa alcançar o topo e os sacrifícios, ou concessões, feitos ao longo do caminho. Ao final, ficamos com uma visão instigante, porém incompleta, da personagem, mas essa ambiguidade é exatamente o que fortalece o filme.

A caracterização de Lydia Tár é tão convincente que pode enganar o espectador a ponto de acreditar que ela realmente existiu. Field cria uma figura com tantos traços de verossimilhança que Lydia parece ter saído de uma biografia não autorizada. A introdução do filme, com Lydia sendo entrevistada em um festival, estabelece a personagem com um pé na realidade, enquanto a atuação de Blanchett confere credibilidade e profundidade a essa protagonista fictícia.

Lydia é uma figura central na música clássica mundial, uma artista de temperamento forte e ambição inabalável. Seu currículo é impressionante, com prêmios e conquistas que poucos podem igualar, mas os desafios pessoais e éticos aos quais ela se submete começam a afetá-la à medida que a história avança. Suas relações complicadas, como com a jovem violoncelista Olga e sua esposa Sharon, se desenrolam como peças fundamentais em sua eventual queda. Esses conflitos expõem Lydia como uma figura humana vulnerável e imperfeita, tornando-se um alvo fácil na era da exposição digital.

Cate Blanchett oferece uma performance impressionante apresentando uma versão de sua personagem que foge das reações exageradas e investe em sutilezas e pequenos gestos. Blanchett explora cada faceta de Lydia sem apelar para o melodrama, provando por que é uma das atrizes mais talentosas de sua geração. A profundidade de sua atuação é tanta que Blanchett realiza as cenas de regência e piano por si mesma, permitindo a Field e ao diretor de fotografia Florian Hoffmeister capturar tomadas longas e ininterruptas, que aumentam a intensidade das cenas.

O elenco de apoio em Tár é um complemento essencial à narrativa, proporcionando contrapeso à atuação intensa de Blanchett. Nina Hoss e Noemie Merlant interpretam personagens que refletem as camadas mais humanas e falhas de Lydia, enquanto a jovem Sophie Kauer, em sua estreia como atriz, traz frescor ao filme. Cada ator, cuidadosamente escolhido, contribui para a construção de um universo onde a genialidade e as fraquezas se encontram.

O filme exibe uma confiança rara em sua narrativa e protagonista, recusando-se a apressar ou simplificar a trama para captar a atenção do público. Tár caminha em seu próprio ritmo, assumindo que nem todos se renderão à sua história. Contudo, para aqueles que embarcam, o filme oferece uma visão envolvente e perturbadora do universo artístico, revelando o que existe por trás das conquistas e da fama. Field traz de volta a atmosfera de seus filmes anteriores, com uma abordagem cuidadosa e sem pressa, ecoando uma época em que o cinema era uma experiência mais introspectiva.

Com mais de duas horas e meia de duração, Tár passa de forma surpreendentemente rápida, resultado da qualidade imersiva da narrativa. Não é uma história real, mas sua honestidade emocional e intelectual a torna mais verossímil do que muitos filmes biográficos por aí. A complexidade de Lydia e a frieza com que ela lida com seu círculo pessoal fazem deste filme uma obra que explora não apenas o sucesso, mas as sombras que o perseguem.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTROS INDICADOS

Gritos e Sussurros

Gritos e Sussurros

Em Gritos e Sussurros, Ingmar Bergman transforma o sofrimento em um ritual íntimo, visualmente arrebatador e emocionalmente devastador. A história de Agnes, que agoniza em seu leito com um câncer terminal, serve de ponto de partida para um mergulho profundo nas...

Blue Moon

Blue Moon

Blue Moon nos leva para uma noite emblemática de 1943, quando o musical Oklahoma! estreia na Broadway e muda para sempre o teatro americano. Para quase todos, trata-se de um marco histórico. Para Lorenz Hart, no entanto, é o dia em que o mundo parece seguir em frente...

Clube de Compras Dallas

Clube de Compras Dallas

Clube de Compras Dallas mergulha em uma história real marcada pela urgência da sobrevivência e pela transformação pessoal diante de uma doença que, nos anos 1980, carregava estigma e desinformação. O filme acompanha Ron Woodroof, um eletricista texano cuja vida...