Os Banshees de Inisherin

(2022) ‧ 1h54

02.02.2023

“Os Banshees de Inisherin”: Um romance sobre desilusão e falta de humanidade

Em Os Banshees de Inisherin, o diretor Martin McDonagh nos transporta para a ilha fictícia de Inisherin, onde, em 1923, uma antiga amizade entre Pádraic (Colin Farrell) e Colm (Brendan Gleeson) é abruptamente interrompida sem motivo aparente. O filme vai além de um simples drama e nos apresenta uma parábola sobre as falhas da natureza humana, explorando o impacto da guerra e da solidão.

Na paisagem inóspita da ilha, McDonagh constroi um ambiente que quase se torna um personagem por si só. É uma terra bela e brutal, capturada com maestria pela câmera de Ben Davis, onde o cotidiano é rudimentar e a comunicação é uma questão de sobrevivência. A natureza isolada de Inisherin torna-se o cenário perfeito para a trama crua e, por vezes, brutal entre os personagens, enquanto os sons da guerra civil irlandesa ecoam à distância.

Pádraic e Colm, que sempre foram inseparáveis, veem a amizade de uma vida inteira desaparecer sem explicação. Colm, cansado das conversas banais e buscando significado em suas músicas, decide que Pádraic é um peso que não quer mais carregar. Esse rompimento repentino lança Pádraic em uma espiral de solidão e confusão, deixando-o sem uma das poucas âncoras de sua vida monótona.

Convencido de que a situação é temporária, Pádraic continua tentando reatar a amizade, apenas para encontrar um Colm cada vez mais resoluto e ameaçador. A declaração de que cortará um dedo a cada tentativa de reaproximação soa como um blefe até que ele cumpre a promessa, em um ato que é ao mesmo tempo absurdo e profundamente cruel. Esse rompimento dramático expõe a futilidade das relações e o desespero inerente de um homem sem propósito.

A tragédia da história é intensificada pelo humor ácido característico de McDonagh. O roteiro oscila entre momentos cômicos e sombrios, trazendo reflexões sobre como o orgulho e a teimosia podem facilmente dominar o comportamento humano. A irmã de Pádraic, Siobhan (Kerry Condon), resume com uma só frase o absurdo da situação: “Vocês todos são uma chatice com essas queixas pequenas”.

McDonagh, que já havia trabalhado com Farrell e Gleeson em Na Mira do Chefe, revisita a química inegável dos dois atores, que se entregam a atuações intensas e sem excessos. A conexão entre eles é palpável, e os diálogos simples, mas carregados de significado, trazem uma crueza que destaca o talento natural da dupla. Ao lado deles, Barry Keoghan brilha como o inocente e marginalizado Dominic, oferecendo nuances que contrastam com a seriedade de Pádraic e Colm.

Embora Os Banshees de Inisherin talvez não alcance o peso emocional de Três Anúncios Para um Crime, outro filme de McDonagh, ele se desvia dos tropeços narrativos de seus projetos anteriores. Aqui, McDonagh evita conclusões fáceis e entrega um filme cujos temas pedem uma reflexão mais profunda, mesmo após os créditos finais. Ele pinta um retrato melancólico da perda e do isolamento, com uma honestidade ímpar.

Este é um filme mais “irlandês” do que qualquer outra obra de McDonagh, e a escolha de uma história quase alegórica traz uma beleza trágica ao filme. Apesar do alcance internacional de Farrell e Gleeson, Os Banshees de Inisherin é uma obra que se encaixa melhor no circuito de arte do que nas salas de shopping que estamos acostumados. A paisagem épica e o ritmo contemplativo tornam a experiência cinematográfica em tela grande especialmente gratificante.

Os Banshees de Inisherin é uma obra que não se preocupa em ser leve ou acessível, e sim verdadeira. Em tempos onde o entretenimento busca o espetacular, McDonagh oferece uma reflexão brutal sobre a banalidade da vida e a complexidade das relações humanas — um filme que merece ser visto, sentido e porque não, ruminado.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTROS INDICADOS

O Homem que Não Vendeu sua Alma

O Homem que Não Vendeu sua Alma

Há momentos em que O Homem que Não Vendeu sua Alma parece um tio mais velho e gentil de Game of Thrones. Martin foi inspirado por alguns dos episódios mais sangrentos da história inglesa, particularmente durante os anos 1400 e 1500. Também podemos ver reflexos da...

Farrapo Humano

Farrapo Humano

Billy Wilder, um dos maiores diretores das décadas de 1940 e 1950, ganhou seu primeiro Oscar de Melhor Direção por Farrapo Humano, em 1945 (ele ganharia outro por Se Meu Apartamento Falasse, em 1960). Ao longo de um período de 21 anos, começando em 1940 e concluindo...

A Rainha

A Rainha

A Rainha, dirigido por Stephen Frears, traz uma visão íntima e complexa sobre um dos momentos recentes mais delicados da monarquia britânica: a morte da Princesa Diana e a reação fria da família real diante do luto coletivo. O filme não apenas humaniza a Rainha...