Sempre Garotas

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23.04.2025

"Sempre Garotas": Crescer, romper e reescrever laços no universo feminino

Sempre Garotas é um longa-metragem indiano, premiado recentemente no Festival de Sundance, dirigido com competência e sensibilidade pela cineasta Schuchi Talati. O filme retrata a vida de Mira, que vive em um internato rígido no Himalaia, alternando períodos na escola e na companhia de sua mãe, na casa onde viveu sua avó. A protagonista possui dezesseis anos, sendo interpretada de forma brilhante pela atriz Preeti Panigrahi, com uma capacidade rara de demonstrar, seja pelo simples olhar ou por ações e comportamentos mais enfáticos, as oscilações, conflitos e mudanças próprios da adolescência.

O filme possui várias camadas emocionais que vão sendo aos poucos reveladas, apresentando as transições hormonais, educacionais e sociais, pelas quais a menina passa a experenciar.

É possível perceber que Mira é vista sob três perspectivas, três olhares. Para a sua comunidade escolar, é a aluna reconhecida como a diretora dos demais estudantes, uma espécie de supervisora dos seus pares, ganhando com isso, a confiança irrestrita das suas professoras, o que acaba gerando muitas exigências, expectativas e responsabilidades. No convívio com sua família, a personagem vai se revelando, uma menina frágil e insegura, que está se transformando em uma mulher com desejos sexuais e vontades. Por fim, ela passa a se envolver em uma verdadeira catarse emocional, quando se apaixona pelo seu primeiro amor, um colega intercambista que veio da Coreia do Sul, assumindo atitudes que contrariam a sua essência e valores.

Uma das maravilhas do cinema, está na capacidade de nos reportar para outras realidades, como no caso da sociedade indiana, reconhecendo rupturas e permanências, avanços e retrocessos culturais, mas também quando conseguimos relacionar, a partir do nosso olhar, da nossa perspectiva, outras produções que tratam, direta ou indiretamente da temática que está sendo abordada.

Foi isso que aconteceu comigo ao final do filme, pois acabei sendo transportada para o universo de Elena Ferrante e sua obra definitiva, Amiga Genial. A tetralogia da autora napolitana, conta a história de duas amigas ao longo de suas vidas na periferia da Napóles dos anos 1950. Elena Greco (narradora personagem) e Raffalla Cerullo, conhecidas respectivamente, como Lenu e Lila.

A tônica da série (2020-2024) (que conseguiu a capacidade singular e impecável de levar para a tela a literatura de Ferrante), trata dos encontros e desencontros das personagens, desde a infância até a fase adulta. Ao longo de suas trajetórias, as protagonistas se unem, rompem, brigam, se reaproximam, realizam planos, mas acima de tudo, são impulsionadas socialmente, a estabelecer uma espécie de competição permanente. Esse contexto acaba provocando em nós expectadores, uma tensão e angústia, mas que ao final, conseguem se reconciliar, mesmo que na distância e no silêncio imposto por uma delas.

E qual a relação entre Sempre Garotas e Amiga Genial?

Entre Lila, inquieta, questionadora e Lenu, introspectiva e insegura, consegui estabelecer semelhanças com a relação de Mira e sua mãe, Anila (Kani Kusruti), uma das personagens do belíssimo, Tudo o que Imaginamos como Luz (2024), que dá vida a uma mãe, extrovertida e comunicativa, mais que a própria filha. Em várias passagens, quase acreditamos que Mira possui vergonha, mas ao mesmo tempo, inveja do comportamento social da mãe.

No meu entendimento, o que une as quatro personagens, é a crença imposta, de que entre mulheres, o que deve preponderar é a concorrência, a supervalorização do amor romântico, sendo os homens, a razão e o fim último da nossa existência.

Mira, ao se apaixonar por um colega de escola, seu primeiro amor, acaba estabelecendo com a sua mãe, uma relação de competição velada, promovendo o aprofundamento da sua insegurança, raiva e até medo. Anila, no fundo sente-se uma coadjuvante de sua própria vida, uma vez que sempre foi escolhida por outrem, no caso, o seu marido ausente, sendo que ela assume a responsabilidade pela criação da filha.

Porém, tanto na obra de Ferrante, quanto no filme, os homens acabam figurando em segundo plano, ofuscados pela complexidade e a profundidade das personagens femininas.

Nico (Amiga Genial) e Sri (Kesav Binoy Kiron), o namorado de Mira, são protótipos de bad boys, perversos, manipuladores e individualistas, e o mais belo e transformador, é que as personagens acabam de alguma forma, rompendo com o padrão patriarcal, ao enaltecer e reconhecer o amor e a reciprocidade entre mulheres. Elas passam a compreender que são as únicas responsáveis pelos seus destinos, na certeza que o amor que estará sempre pronto para prestar acolhimento e salvação, é aquele entre amigas e entre mãe e filha, com todos os desafios inerentes a qualquer vínculo afetivo.

Ao final, Sempre Garotas, acaba destacando a necessidade, de reafirmação e para que não esqueçamos jamais, da prevalência das nossas escolhas, desejos e vontades. Mira, Anila, Lila e Lenu, nos ensinam a enaltecer o poder da sensibilidade, coragem, força e alteridade do feminino.

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AUTOR

Daniela de Oliveira Pires

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