Manas

(2024) ‧ 1h41

09.05.2025

"Manas": A coragem de romper o ciclo

Manas é um filme dirigido por Marianna Brennand. É um drama com 1h41 de duração. O roteiro é de Marcelo Grabowsky e Felipe Sholl, e o elenco inclui Jamilli Correa, Fátima Macedo e Rômulo Braga.

O filme se passa na Ilha do Marajó e aborda o tema delicado do abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes. A personagem principal, Marcielle, interpretada por Jamilli Correa, é uma jovem de 13 anos que decide confrontar a violência que marca a vida das mulheres de sua família e comunidade.

A trama apresenta a história de Marcielle (Jamilli Correa), uma jovem de apenas 13 anos inserida em um meio repleto de violências dentro da periferia onde mora. Moradora da Ilha de Marajó, no Pará, junto com o seu pai, Marcílio (Rômulo Braga), sua mãe, Danielle (Fátima Macedo), e três irmãos. A menina sofre com a perda da sua irmã mais velha Claudinha, que partiu para bem longe de onde moravam após arrumar um homem que circulava pela bacia hidrográfica que banha a região. Marcielle, agora mais experiente com a vida, começa a ter uma percepção diferente em relação às suas idealizações. Ela entendeu que as mesmas estão presas em um ambiente marcado por dor e sofrimento. Preocupada com a irmã mais nova e ciente de que o futuro não lhe reserva muitas opções, ela decide confrontar a engrenagem violenta que rege a sua família e as mulheres da sua comunidade.

A direção de Marianna Brennand é incrível pela forma como aborda um tema delicado como a exploração sexual, com cuidado ético, delicadeza e respeito. Evita-se a estetização da violência.

As atuações são competentes e uniformes, com destaque para Rômulo Braga, que atribui nuances a um personagem que poderia ser simplificado. Jamilli Correa, na sua estreia no cinema, brilha com uma performance impactante. Dira Paes também se destaca por representar a continuidade de mulheres fortes no cinema nacional.

A atmosfera do filme, a cultura marajoara presente no enredo, o silêncio como forma de linguagem e a fotografia são elementos fortes da narrativa. A beleza da paisagem contrasta com a dureza do cotidiano, sem romantização da pobreza.

O filme é uma denúncia importante da exploração sexual na Ilha de Marajó e um alerta para um problema endêmico. A diretora busca dissecar esse horror de dentro para fora. A obra é um exemplo do cinema pós-#MeToo, que busca quebrar o ciclo de silêncio e violência, mostrando a possibilidade de “justiçamento” tardio.

Em resumo, Manas é uma abordagem sensível de um tema difícil, pelas atuações, pela sua atmosfera e por sua relevância como denúncia social. É um filme forte, real e impactante, que expõe uma ferida crônica do interior do Brasil com sensibilidade e sem exibir explicitamente a violência. A forma corajosa e necessária com que o filme retrata essa realidade, sem cair na fetichização da violência, A potência do silêncio como forma de impacto e linguagem no filme, a atuação competente do elenco, em especial de Jamilli Correa e a bela fotografia que equilibra a beleza da paisagem com a dureza do cotidiano e a sensibilidade de Marianna Brennand ao capturar as nuances da vida na Amazônia, apresentando uma realidade muitas vezes invisibilizada são os pontos fortes dessa perturbadora obra, mas essencial, pois o longa entrega exatamente o que propôs.

Manas foi premiado na mostra Giornate degli Autori do Festival de Veneza de 2024. O júri elogiou o filme por sua sensibilidade ao abordar o tema do abuso e por sua técnica, atuações e mensagem forte. Marianna Brennand comentou que o filme tem um caráter universal e espera que ele possa “lançar luz e encorajar mulheres a quebrarem silêncios”.

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AUTOR

Ricardo Feldmann Dotto

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