No cinema, a britânica Rebecca Lenkiewicz é conhecida como roteirista de filmes premiados como Ida, Desobediência e Ela Disse. Dramaturga também premiada, estreia na direção com Hot Milk, baseado no romance homônimo da escritora inglesa Deborah Levy. Nesta estreia como diretora, entrega um filme que está entre o cinema e o teatro, tentando alinhavar uma direção cuidadosa de atrizes que vivem suas próprias limitações do corpo, em um sentido amplo do que essas podem ser.

Em Hot Milk a jovem Sofia (Emma Mackey), antropóloga em formação, está no litoral espanhol cuidando da mãe Rose (Fiona Shaw) em um tratamento especial de saúde. A mulher está paralisada em uma cadeira de rodas sem um diagnóstico exato. Rose é ríspida, porém bem humorada, detalhe que, em primeiro plano, se apresenta como uma representação quase caricata de uma mãe exigente e dura. A relação de doação e exigência entre as duas passa a ser abalada quando surge Ingrid (Vicky Krieps) que, exposta no filme como um símbolo de abertura diante da vida, apresenta atitudes mais ousadas diante dos traumas e dores do passado.
Ao se apaixonar por Ingrid, Sofia passa a questionar o próprio corpo diante de qualquer sentimento que possa ter. Como espectadoras, observamos no começo de Hot Milk uma postura mais contida da personagem, dialogando com o corpo enrijecido da mãe na cadeira de rodas. Rose arrasta a filha para seu limbo de reclamação e espécie de périplo ao redor do rancor que a consome há muito tempo. O desejo surge para minar não apenas a quase apatia de Sofia diante da vida, mas também sua noção de sexualidade, desejo e, especialmente, a ideia de como uma boa filha deve se comportar.

Como sugere o título do longa em inglês, o leite é um tipo de líquido que para aquecer, e por consequência ferver, irrompe, vaza, ultrapassa a altura do recipiente, senão só deve ser bebido gelado. Sofia e Rose vão ter que aprender, durante o excerto que assistimos de suas vidas, que precisam dessa variação de temperatura para que sua relação passe de um estado para o outro antes que ambas tenham que romper totalmente.
A cena final deixa nítido – apesar de sua abertura – que Hot Milk é um filme de observação cuidadosa de relações que sempre estão entre a linha tênue de uma temperatura prestes a explodir. Vale a pena prestar atenção nos métodos de direção de Rebecca Lenkiewicz que, em seus roteiros anteriores, já demonstrava um interesse na observação direta na performance de atrizes que colocam seus corpos para jogo em cena, desorientado o olhar clássico masculino em busca de deleite e simpatia.







