Anônimo é aquele tipo de filme que começa como um drama sobre um homem comum e termina mergulhando em uma catarse de violência estilizada, onde cada soco e cada explosão parecem ter sido coreografados para arrancar sorrisos culpados da plateia. Hutch Mansell, interpretado por Bob Odenkirk, é o retrato da passividade — um pai e marido que prefere engolir as injustiças da vida a reagir. Porém, basta um detalhe aparentemente pequeno para despertar nele algo que estava adormecido há muito tempo.
O roteiro, assinado por Derek Kolstad, criador de John Wick, bebe claramente da mesma fonte, mas não tenta esconder isso. A diferença é que aqui temos um protagonista que, longe de ser o estereótipo do herói invencível, passa boa parte do tempo machucado, arfando e tentando se recompor entre uma luta e outra. Odenkirk, conhecido pelo papel do advogado Saul Goodman em Breaking Bad e Better Call Saul, abraça essa vulnerabilidade física e emocional de forma convincente, o que torna a escalada de violência ainda mais divertida de acompanhar.

A virada acontece quando Hutch percebe que o assalto à sua casa custou mais do que alguns bens materiais — foi levado o bracelete de sua filha. Esse gatilho desperta seu passado misterioso e coloca em movimento uma sequência de eventos que culmina em uma das cenas mais memoráveis do filme: um confronto dentro de um ônibus contra um grupo de gângsteres russos. É caótico, brutal e, ao mesmo tempo, deliciosamente exagerado.
O vilão da vez é Yulian, interpretado por Aleksey Serebryakov, que dá ao personagem um equilíbrio entre a caricatura e a ameaça real. Sua presença é o bastante para intensificar o jogo de gato e rato com Hutch, levando o conflito para um nível de destruição que vai muito além de simples acertos de contas. A direção de Ilya Naishuller garante que essa escalada seja conduzida com ritmo acelerado e sem grandes respiros para o espectador.
O que torna Anônimo mais cativante é justamente essa mistura entre a ação insana e um protagonista que nunca parece confortável com o que está fazendo, apesar de ser muito bom nisso. Odenkirk não tenta bancar o durão tradicional; em vez disso, constrói um personagem que oscila entre o alívio por extravasar sua raiva e a frustração de saber que esse caminho pode ter consequências irreversíveis.

Visualmente, o filme entrega o que promete: cenas de luta bem coreografadas, uso criativo de objetos como armas improvisadas e uma violência que, embora explícita, tem um tom quase cartunesco em alguns momentos. Essa abordagem evita que o longa se leve completamente a sério, permitindo que o humor negro apareça sem quebrar o clima de tensão.
No fim, Anônimo pode não reinventar o gênero, mas encontra seu próprio espaço entre os filmes de ação contemporâneos. É rápido, barulhento e autoindulgente na medida certa, funcionando como um espetáculo para quem gosta de ver protagonistas improváveis mostrarem que ainda têm muito a oferecer quando o assunto é sobrevivência — e pancadaria.




