A Paris Errada

(2024) ‧ 1h45

Um romance sem sabor em "A Paris Errada"

Felipe Fornari

Reality shows de namoro como The Bachelor se sustentam em situações forçadas, mas conseguem fisgar espectadores com um certo charme involuntário. A manipulação das emoções e o exagero melodramático, por mais artificiais que sejam, criam um fascínio que mantém o público preso. A Paris Errada, porém, não consegue reproduzir essa fórmula. O filme da Netflix tenta unir o doce artificial do gênero com a atmosfera de um reality de encontros, mas acaba entregando um produto sem graça, previsível e sem a faísca necessária para entreter.

A premissa até parece promissora: Dawn, interpretada por Miranda Cosgrove, sonha em estudar arte em Paris, mas acaba inscrita em um reality de namoro que, por um engano, acontece em Paris, Texas. A partir daí, abre-se o espaço para uma comédia romântica que deveria brincar com o absurdo da situação. No entanto, o roteiro não consegue extrair charme ou humor dessa ideia, caindo em lugares-comuns que já vimos incontáveis vezes em produções de baixo orçamento.

Um dos maiores problemas é que Dawn, construída inicialmente como uma jovem independente e determinada, rapidamente se perde em uma narrativa que mina sua força. Em vez de valorizar seu desejo de seguir uma carreira artística, o filme opta por reduzi-la a uma heroína que se rende a um romance forçado com Trey (Pierson Fodé), o caubói genérico que serve de prêmio da competição. O que poderia ser uma sátira espirituosa ao formato dos realities vira apenas uma repetição sem energia de clichês ultrapassados.

Visualmente, A Paris Errada também decepciona. A fotografia lembra gravações amadoras, com cortes bruscos e enquadramentos estranhos, quase como se tivesse sido filmado às pressas. A direção carece de estilo ou de qualquer assinatura, tornando o resultado ainda mais insosso. Até mesmo a ambientação em um rancho texano, que poderia render algum carisma visual, é reduzida a cenários genéricos sem vida.

O elenco secundário, formado por arquétipos inspirados nos típicos concorrentes de reality shows, também não acrescenta muito. As piadas soam preguiçosas e a tentativa de caricaturar diferentes tipos de participantes – da princesa mimada à influenciadora superficial – não passa de rascunhos mal explorados. Falta ritmo, falta timing cômico e falta principalmente química entre os personagens.

Cosgrove, com seu carisma, até tenta dar alguma energia à protagonista. Porém, o roteiro engessa sua atuação, deixando-a limitada a gags físicas e interações românticas sem inspiração. A relação entre Dawn e Trey jamais convence, já que não há qualquer tensão ou desenvolvimento real entre eles. O filme exige que o público acredite em um romance que simplesmente não existe.

No fim, A Paris Errada se perde entre o que poderia ter sido uma sátira divertida e o que acabou sendo um romance genérico, desprovido de originalidade ou encanto. Ao trocar o sonho da protagonista por uma relação sem graça, a produção transmite uma mensagem questionável e um final pouco satisfatório. Nem como paródia, nem como romance açucarado, o longa encontra seu lugar, resultando em uma experiência esquecível que falha em entregar até o mínimo de diversão esperado.

ONDE ASSISTIR

OUTRAS CRÍTICAS