Há algo de melancólico em ver um cineasta talentoso como Guilherme de Almeida Prado, responsável por obras de refinamento estético como A Dama do Cine Shanghai e Perfume de Gardênia, submeter-se ao maniqueísmo e ao didatismo de um projeto como A Palavra. O filme tenta atualizar as histórias bíblicas dos profetas Elias e Eliseu para o sertão nordestino contemporâneo, mas o que poderia ser uma releitura ousada transforma-se num sermão reacionário travestido de alegoria espiritual.
A premissa até promete algo instigante: uma jornalista cética, enviada para desmascarar um suposto milagreiro, acaba confrontando suas próprias crenças. Mas o roteiro rapidamente abandona qualquer nuance em favor de uma narrativa binária, em que fé e razão são reduzidas a caricaturas. Jezebel — nome escolhido sem sutileza — é retratada como a personificação da imprensa corrupta e sem alma, enquanto Elias surge como um messias que tudo sabe e tudo redime, com a profundidade de um pires.

Os diálogos são um dos grandes problemas de A Palavra. Em vez de expressarem emoção ou reflexão, soam artificiais e forçados, como se o filme temesse a ambiguidade. Frases como “Liberdade de imprensa é só pra imprensar a gente na parede” e “Políticas são quase tão importantes quanto as batidas do seu coração” resumem a falta de sutileza da abordagem. Tudo é dito de forma literal, sem espaço para o espectador pensar — uma homilia audiovisual que não admite questionamento.
Há ainda um desconforto político que atravessa toda a obra. O elogio inicial a Israel e a caracterização do vilão socialista como um corrupto que afirma ter “Karl Marx como bíblia” deixam claro o tom ideológico da produção. Não se trata de uma reflexão sobre fé, mas de um discurso alinhado a uma agenda conservadora, que usa o cinema como púlpito. O resultado é um filme que se pretende inspirador, mas acaba reforçando estereótipos e antagonismos já cansados.
Tecnicamente, a direção tenta conferir solenidade às cenas com o uso de filtros quentes e planos estáticos, mas o resultado é apenas um visual engessado, que lembra novelas bíblicas televisivas. A presença de uma marionete narradora — recurso que poderia soar poético — acaba soando involuntariamente cômica, somando-se ao excesso de simbolismos simplórios, como a emissora “TV Baal” e o nome dos personagens, todos escolhidos a dedo para reforçar a metáfora bíblica.

As atuações oscilam entre o canastrão e o constrangido. Tuca Andrada faz o possível para dar gravidade a Elias, mas seu personagem é tão unidimensional que nada há para ser explorado. Regina Maria Remencius, como Jezebel, se perde em trejeitos de telenovela, enquanto o elenco de apoio tenta dar dignidade a falas que beiram o inverossímil. A falta de ritmo somada à montagem truncada, transforma a experiência em algo exaustivo.
No fim, A Palavra é um filme que confunde fé com propaganda e reflexão com pregação. Faltam-lhe o mistério, a poesia e a ambiguidade que tornaram o cinema de Guilherme de Almeida Prado digno de respeito. Aqui, sobra convicção, mas falta arte. O resultado é uma obra engessada, repleta de boas intenções mal traduzidas e de simbolismos que mais afastam do que aproximam — uma verdadeira parábola sobre como até os grandes podem se perder quando trocam o cinema pelo catecismo.








