A Última Ceia

(2025) ‧ 1h54

24.03.2026

“A Última Ceia”: Uma ceia com nenhum sabor

A proposta de A Última Ceia é ambiciosa: revisitar um dos episódios mais emblemáticos do cristianismo, trazendo novas camadas a personagens que, muitas vezes, são tratados de maneira simplista nas representações tradicionais. O filme até consegue criar um ambiente esteticamente digno de nota, com locações em Marrocos que remetem a uma época distante e sagrada. No entanto, o que se vê em cena é um esforço que falha em emocionar — e que, apesar da relevância do tema, não consegue traduzir sua força em linguagem cinematográfica.

Jamie Ward, conhecido da série His Dark Materials, assume o papel de Jesus Cristo, mas parece deslocado na função. Sua figura lembra mais a de um galã adolescente dos anos 80 do que a de um líder espiritual prestes a encarar seu destino. É verdade que há beleza na composição visual de suas cenas, mas falta densidade emocional em suas palavras e ações. Em um filme que exige introspecção e humanidade, sua atuação resvala no artificial.

Já Robert Knepper, como Judas, tem um pouco mais de material dramático à disposição, mas também sofre com escolhas narrativas questionáveis. Ao invés de aprofundar a tragédia pessoal da traição, o roteiro opta por cenas que parecem saídas de uma encenação escolar com figurinos rebuscados. A adição de personagens secundários pouco desenvolvidos e de situações que pouco contribuem para o arco principal tornam a experiência ainda mais desconectada.

O longa tenta preencher lacunas da narrativa bíblica, trazendo conflitos internos entre os discípulos e dúvidas sobre os ensinamentos de Jesus. A ideia é interessante e tem potencial, mas esbarra em diálogos truncados e em uma direção que parece não confiar na inteligência do espectador. Ao invés de sugerir, o filme explica — e ao invés de emocionar, ilustra. O impacto, que deveria vir da palavra e do gesto, é constantemente abafado por uma estética que tenta compensar o que falta em profundidade.

Há momentos de ação e intensidade visual que funcionam, especialmente nas sequências mais próximas da prisão de Cristo. Nesses trechos, o filme se permite um pouco mais de ritmo e tensão, abandonando o tom arrastado que predomina no restante. O problema é que esses instantes são pontuais, e não suficientes para sustentar o todo. Quando o longa volta a se concentrar nos diálogos entre os discípulos, o peso da narrativa se esvai novamente.

Entre os coadjuvantes, Nathalie Rapti Gomez traz alguma sensibilidade a Maria Madalena, e Daniel Fathers cumpre com dignidade o papel de José de Arimateia. Mas são figuras quase periféricas em um filme que promete mais do que entrega. A ausência de uma condução emocional mais apurada faz com que até mesmo a representação do sacrifício de Cristo pareça distante, quase fria.

A Última Ceia tinha todos os ingredientes para ser uma obra marcante dentro do cinema cristão contemporâneo. Porém, ao apostar mais na forma do que no conteúdo, e ao falhar em capturar a essência espiritual de sua história, o filme acaba como um retrato bonito, mas vazio. Fica a sensação de uma ceia cuidadosamente montada, mas onde o principal — o alimento da fé, da emoção e da verdade — não foi servido.

ONDE ASSISTIR

AUTOR

Felipe Fornari

OUTRAS CRÍTICAS

Falcão e o Soldado Invernal

Falcão e o Soldado Invernal

O Universo Cinematográfico da Marvel construiu ao longo desses anos uma fórmula difícil de ser copiada e que por muitas vezes serviu de inspiração e crítica por profissionais da própria indústria. É indiscutível o êxito dessa trajetória que cresce a cada fase, mas...

Mulheres Divinas

Mulheres Divinas

Parece que As Sufragistas, filme de 2015, realizado pela inglesa Sarah Gavron, abriu caminho para que outros países do mundo contassem histórias de lutas das mulheres durante o século XX. No caso do filme britânico, sabemos que os embates ao direito do voto vêm desde...

Boa Noite e Boa Sorte

Boa Noite e Boa Sorte

Boa Noite e Boa Sorte, dirigido por George Clooney, é um dos filmes mais contundentes sobre a força do jornalismo e seu papel essencial na democracia. Ambientado nos anos 1950, durante a era do macarthismo, a produção revisita o embate entre Edward R. Murrow (David...