São Paulo, Sociedade Anônima

(1965) ‧ 1h30

A cidade que cresce, o sujeito que se esvazia: modernização e contradição em “São Paulo, Sociedade Anônima”

Daniela de Oliveira Pires

São Paulo, Sociedade Anônima, filme dirigido e roteirizado por Sergio Person, representante de uma corrente modernista do cinema, ambientado na sociedade industrial dos anos 1960, será relançado em versão restaurada em 4K, em uma parceria que envolveu Brasil, Itália e Estados Unidos. Trata-se de um reconhecimento merecido para uma obra singular da cinematografia brasileira, em um país que necessita reafirmar constantemente a urgência de preservar sua memória histórica. Destaca-se que o filme é considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).

Em uma feliz coincidência, neste mês em que celebramos o relançamento da obra definitiva de Person nos cinemas, sua filha, a também cineasta Marina Person, acaba de participar do lançamento do filme Isabel, dirigido por Gabe Klinger, no qual é protagonista e colaboradora do roteiro. O filme foi rodado em 16 mm, com locações na capital paulista. Entre as inspirações, está o longa São Paulo, Sociedade Anônima. Ambos retratam os sonhos e as frustrações da classe média paulistana em ascender social e economicamente.

São Paulo, Sociedade Anônima possui vários méritos. O primeiro deles é a fotografia, de Ricardo Aronovich, toda em preto e branco, com a rara capacidade de registrar, com câmera na mão e em movimento, uma cidade em seus detalhes e em constante crescimento e transformação: o desenvolvimento do centro comercial, o Viaduto do Chá, a Corrida de São Silvestre durante a noite, as festas de Ano-Novo e o carnaval. Além disso, evidenciam-se alguns símbolos do desenvolvimento no Brasil, do chamado capitalismo industrial tardio, como a instalação das indústrias automobilísticas, a construção de viadutos, o telefone e a televisão, que simbolizam a cultura da apropriação dos chamados valores econômicos.

O filme possui um grande elenco: Walmor Chagas (Carlos), Eva Wilma (Luciana), Darlene Glória (Ana), Ana Esmeralda (Hilda) e Otello Zeloni (Arturo). O protagonista, Carlos, vive em um processo de contradição: viver em uma sociedade capitalista que exige a manutenção de padrões e comportamentos esperados, tanto nas relações pessoais quanto nas profissionais, quando seu desejo é romper com esses laços que geram frustração, angústia e sofrimento.

Os padrões que lhe são exigidos, por vezes, tornam-se insuportáveis, fazendo com que Carlos deseje, a todo instante, romper e literalmente escapar dessas amarras sociais. Porém, a todo momento, ele é chamado, sempre e cada vez mais, a recomeçar. Não sabe dizer exatamente o porquê, mas deve continuar caminhando, produzindo e agindo por meio das aparências, convivendo e sendo conivente com traições, falsas expectativas e com a exploração da mão de obra de trabalhadores, desprovidos de consciência social acerca de seus direitos, em um conluio entre empresários e o Estado.

Observam-se dois movimentos: o desenvolvimento industrial tardio incentiva o consumo e a modernização do país; porém, mantém e aprofunda as desigualdades estruturais, como o trabalho precarizado e a corrupção institucionalizada. As expectativas geradas pelo capitalismo da felicidade não se sustentam diante do vazio da realidade concreta.

Ao final, a tentativa de fuga de Carlos torna-se fugaz e breve, pois a própria estrutura social o convoca e o traz de volta à sua “normalidade”. O desejo de “recomeçar” não rompe com as contradições inerentes à lógica do capital.

Por tudo isso, a obra é atual, pertinente e necessária para que possamos refletir sobre a sociedade de consumo e a sociedade do cansaço e, ainda mais, sobre limites e possibilidades, avanços e retrocessos, no rompimento com a lógica histórica do capital que condiciona as subjetividades e as experiências sociais individuais e coletivas.

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