A Graça

(2025) ‧ 2h13

12.03.2026

Paolo Sorrentino retorna com “A Graça” nos perguntando, afinal, de quem é o nosso tempo?

De quem é o nosso tempo? é a frase que dita o ritmo de A Graça, filme de Paolo Sorrentino, provavelmente um dos diretores italianos mais prolíficos da atualidade. Depois do mediano Parthenope, o diretor volta para fazer o que sabe de melhor: ensaiar devaneios de melancolia de homens que até poderiam se vender como heróis publicamente, mas que são corriqueiros e comezinhos nos melhores sentidos das duas palavras.

Na música “Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso, a resposta para a pergunta que abre esse texto poderia ser que, sobre o tempo, “O que usaremos pra isso / Fica guardado em sigilo”. Em A Graça, o sigilo é onde nos encontramos enquanto espectadoras, adentrando a vida privada de personagens públicos. Sorrentino traz um presidente fictício da Itália vivendo os seus últimos seis meses de mandato. Mariano De Santis (um Toni Servillo sempre impressionante diante da câmera) é o tipo de estadista pacato: publicamente, um jurista aposentado, homem sério e direto. Na vida pessoal, viúvo saudoso, pai de dois filhos adultos, fumando escondido da filha e vivendo dilemas pessoais que se relacionam com seu papel público.

O filme poderia ser simplório se não fosse a habilidade de Sorrentino em contar uma boa história, em especial no sentido de fazer algo que a alta velocidade das informações não permite muito mais: dilatar o tempo das cenas. Acompanhamos, ao longo de um pouco mais de duas horas a passagem dos diálogos, das conversas miúdas de café da manhã, jantar e reuniões mais íntimas dentro do Palácio do Quirinal, em Roma. Como já conhecido, Sorrentino tem a verve Fellinesca de saber balancear planos fechados de seus personagens com a beleza deslumbrante dos espaços em que filma. Os dilemas do presidente De Santis são acompanhados por cenários centenários, e até mesmo milenares, da tal democracia romana. Seus dilemas morais atravessam a história de um país e também da democracia.

Não dá para mentir que não assusta a humanidade contida no protagonista em tempos totalitários como estes. O filme se chama A Graça justamente por dois indultos e uma lei que o estadista precisa votar antes da aposentadoria, ou seja, dar a graça. Os indultos se referem ao perdão a duas pessoas homicidas e a lei é nada menos que a regulamentação da eutanásia. As três assinaturas se referem à pergunta do início: quem decide quem morre e quem vive? Esse é o grande dilema e resposta a ser dada pela fabulação de um presidente que não existe. Em A Graça, apesar de termos uma espécie de resposta concreta, mais ainda temos um ensaio sobre as possibilidades de resposta diante dessas grandes questões que parecem nem rondar mais a democracia, e até mesmo nem temos mais tempo para elaborarmos sobre elas. E é isso que a ficção nos dá – com um projeto estético robusto, amarrado com a fotografia e cinematografia conhecidas no cinema do diretor –, de poder recuperar a dilatação do tempo tão necessária: se dar ao luxo de refletir.

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AUTOR

Emanuela Siqueira

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