Amigas Sem Filtro

(2026) ‧ 1h33

Quando a amizade é mais divertida que o roteiro

Felipe Fornari

Amigas Sem Filtro não chega aos cinemas com a intenção de reinventar a comédia sobre amigas que decidem escapar da rotina. A viagem para um spa de luxo, os conflitos acumulados, as decisões impulsivas e o caos que se instala quando a quarta integrante aparece são elementos que o gênero conhece muito bem. Ainda assim, o filme encontra uma razão bastante simples para funcionar: a química entre suas protagonistas transforma uma história previsível em uma companhia agradável.

Jane, Sophie, Coco e Mel carregam problemas bastante diferentes, mas igualmente reconhecíveis. Enquanto uma vive praticamente em função do trabalho e dos filhos, outra não consegue se impor profissionalmente, uma terceira ainda tenta lidar com o fim do casamento e a quarta parece ter transformado o caos em estilo de vida. Quando todas chegam ao spa, a promessa de descanso rapidamente desaparece, dando lugar a situações cada vez mais absurdas.

O problema é que o roteiro de Amigas Sem Filtro raramente se interessa em aprofundar aquilo que apresenta. Cada personagem recebe um conflito muito bem delimitado e, consequentemente, uma solução igualmente previsível. Há uma boa ideia na reflexão sobre amizades que atravessam décadas e podem sobreviver simplesmente porque a história compartilhada parece ser motivo suficiente para mantê-las, mas o filme passa por essa questão sem explorar todas as suas possibilidades.

Felizmente, as atrizes compensam boa parte dessas limitações. A dinâmica entre elas parece espontânea, como se realmente existissem anos de intimidade, implicâncias, piadas internas e ressentimentos acumulados. O humor também se beneficia dessa cumplicidade: mesmo quando uma piada não é especialmente brilhante, a reação de uma personagem à outra frequentemente consegue arrancar um sorriso. O filme sabe que seu maior patrimônio está justamente nesse quarteto.

As melhores sequências são aquelas em que a produção abandona qualquer pretensão de sofisticação e simplesmente abraça o absurdo. As confusões envolvendo os tratamentos do spa, os animais e as perseguições transformam o cenário luxuoso em um verdadeiro parque de diversões para as personagens. São situações deliberadamente exageradas, mas funcionam porque as intérpretes se entregam completamente à comédia física e ao ridículo.

Há, ainda, momentos em que a produção consegue ser surpreendentemente delicada. A amizade entre mulheres adultas, afinal, também envolve reconhecer que as pessoas mudam, acumulam responsabilidades e podem se afastar mesmo quando continuam se amando. A questão de saber se uma amizade precisa durar para sempre apenas porque começou na adolescência é interessante, mas o longa prefere uma resposta confortável à possibilidade de encarar de verdade a dificuldade de abandonar vínculos que já não fazem sentido.

No fim, Amigas Sem Filtro está longe de alcançar as melhores comédias do gênero, justamente porque repete muitas estruturas que já vimos inúmeras vezes e não consegue extrair delas reflexões particularmente novas. Mas existe um prazer legítimo em acompanhar quatro personagens adultas simplesmente se permitindo fazer besteira, rir umas das outras e tentar recuperar uma parte de si mesmas que a vida cotidiana deixou para trás. É previsível, leve e irregular, mas a boa química do elenco faz dessa viagem um passeio bastante agradável.

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