Amor, Sublime Amor

(1961) ‧ 2h33

25.12.1961

Um clássico dos musicais: “Amor, Sublime Amor” e sua fusão de romance, dança e violência

No final da década de 1950 e início da década de 1960, os musicais haviam se tornado um dos gêneros cinematográficos mais populares. A lista de sucessos é impressionante, incluindo títulos como Cantando na Chuva, Ao Sul do Pacífico, O Rei e Eu, Oklahoma!, Sinfonia em Paris, Minha Bela Dama, Sete Noivas Para Sete Irmãos e Carrossel. Consequentemente, os magnatas de Hollywood estavam sempre em busca de novos materiais, independentemente de serem originais ou adaptados. Assim, sempre que um novo musical da Broadway chamava a atenção do público, geralmente era feita uma tentativa de transformá-lo em um evento cinematográfico.

Amor, Sublime Amor estreou na Broadway em 1957, vários anos depois que a ideia foi concebida por Leonard Bernstein e Jerome Robbins. O conceito da peça era trazer Romeu e Julieta para um cenário contemporâneo e apresentar a história como um musical, resultando numa mistura intrigante de romance, tragédia, violência, canto e dança. Robbins e Bernstein andaram na corda bamba para manter os elementos equilibrados (olha o trocadilho aí, gente!); teria sido fácil que um aspecto sobressaísse mais que outros, destruindo assim toda a produção. O público adorou a peça. Ela ficou dois anos na Broadway antes de sair em turnê e depois retornar a Nova York para uma grande reabertura. A ideia sobre um filme veio logo depois que Amor, Sublime Amor se tornou um sucesso. Assim, com Bernstein e Robbins trabalhando em conjunto com o diretor Robert Wise, a versão cinematográfica entrou em produção em 1960. Depois de estrear em outubro de 1961, tornou-se um sucesso internacional e ganhou dez Oscars, incluindo Melhor Filme.

O filme se passa no Upper West Side de Nova York no final dos anos 1950. Aqui, os Montagues e Capuletos são representados por gangues rivais: os Jets e os Sharks. O primeiro grupo é composto pela primeira geração de nova-iorquinos cujos pais se conheceram em barcos durante as primeiras décadas do século passado. Seus rivais são os imigrantes porto-riquenhos recém-chegados aos Estados Unidos. As constantes rixas entre os Jets e os Sharks estão prestes a explodir em uma guerra aberta, mas não antes de Tony (Richard Beymer), um dos fundadores dos Jets (que não está mais na gangue – ele conseguiu um emprego), se apaixonar por Maria (Natalie Wood), irmã do líder dos Sharks. No verdadeiro estilo Romeu e Julieta, os dois desafiam as convenções e arriscam tudo, inclusive a vida, para ficarem juntos. E, também como na peça de Shakespeare, não pode haver finais felizes.

Para seu crédito, Amor, Sublime Amor não foge de questões difíceis. Explora tanto a falta de sentido dos conflitos entre gangues quanto o preconceito enfrentado pelos imigrantes. No entanto, pelos padrões atuais, suas opiniões sobre ambos parecem um pouco ingênuas e datadas. E a abordagem da violência é única. Amor, Sublime Amor quase não possui derramamento de sangue – até mesmo as cenas de facadas e tiros são “limpas”. Todas as lutas são altamente estilizadas e fora da realidade. Os personagens dançam entre si durante o processo de perseguição e ataque. No entanto, há uma verdadeira sensação de ameaça em algumas dessas cenas, devido em grande parte à coreografia e à partitura dissonante de Bernstein. Acabamos sentindo mais a violência do que vendo. Nem sempre funciona – o poder das cenas em que os personagens morrem é indiscutivelmente diminuído por esta abordagem – mas permite que uma história mais sombria seja contada dentro de uma estrutura musical.

O canto é acompanhado por uma coreografia forte. O papel de Jerome Robbins como coreógrafo foi tão crucial para o sucesso do filme que ele recebeu o status de codiretor, embora a maior parte da “direção”, no sentido amplo da palavra, tenha sido realizada por Robert Wise (que depois dirigiria A Noviça Rebelde). Os talentos de dança do elenco compensam em diversas sequências complexas e brilhantemente executadas, incluindo uma espetacular abertura de doze minutos, as idas e vindas de “America” e a ousada “Cool”. Enquanto isso, Wise cuida da tarefa de fundir os elementos dramáticos com os momentos musicais.

Visualmente, Amor, Sublime Amor é fantástico. Embora o foco do público esteja, sem dúvida, na trilha sonora, Wise e o diretor de fotografia Daniel L. Fapp dão ao filme uma aparência única para o West Side de Manhattan no final dos anos 1950. Algumas cenas foram filmadas no local, mas a maior parte do trabalho foi feita em cenários elaboradamente construídos. Ele apresenta algumas das cores mais ricas encontradas em qualquer produção dos anos 1960. Enquanto isso, closes de Wood e Beymer são usados de forma eficaz para destacar sua crescente atração.

Até Baz Luhrmann fazer sua versão incomum de Romeu e Julieta usando trechos do diálogo original de Shakespeare em um cenário moderno, Amor, Sublime Amor permanecia a modernização mais conhecida e atípica da história do Bardo. E, embora a versão cinematográfica não funcione tão bem hoje como na sua estreia, ela ainda representa uma fusão corajosa e eficaz de elementos sérios e fantásticos e, no processo, ainda oferece duas horas e meia de puro entretenimento. É verdade que há momentos em que o filme exagera um pouco, mas esses casos são contrabalançados pelos momentos mais frequentes em que oferece seu próprio tipo de magia cinematográfica.

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AUTOR

Felipe Fornari

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