Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância)

Michael Keaton faz um retorno surpreendente nesta sátira ao showbiz

29.01.2015 │ 08:07

29.01.2015 │ 08:07

Michael Keaton faz um retorno surpreendente nesta sátira ao showbiz

Um quarto de século depois de Batman inaugurar a era dos heróis em Hollywood – Michael Keaton faz seu retorno triunfal com Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância), um olhar certeiro e desafiadoramente nada formulaico sobre as tentativas de uma estrela de cinema para ressuscitar sua carreira montando um vaidoso projeto na Broadway.

O quinto filme de Alejandro G. Iñárritu (Babel) é um triunfo em todas as escalas criativas, do elenco à execução, que deixará a indústria em polvorosa, cativando a multidão de artistas e especialistas que votam na temporada de premiações (Hollywood adora falar sobre si mesmo, não é verdade?).

Keaton foi uma escolha ousada para interpretar Batman em 1989, sendo a melhor e a pior coisa que poderia ter acontecido ao ator, que se tornou mundialmente conhecido, mas nunca encontrou outro papel do mesmo tamanho – nem mesmo tendo trabalhado com Tarantino, em Jackie Brown.

Como Riggan Thomson, em Birdman, Keaton está interpretando um arquétipo de si mesmo, como poucos outros atores poderiam fazer: uma celebridade cuja decisão de interpretar um super-herói chamado Birdman, no começo de sua carreira, torna impossível para os críticos e o público levá-lo a sério em qualquer outro trabalho. Riggan é um desses papéis que depende muito da personalidade do ator fora das telas.

A crise interpretada por Keaton é quase universal, até cósmica por assim dizer, como sugerido pela visão apocalíptica de uma estrela cadente no início da projeção. Começamos com Riggan, levitando calmamente em seu camarim um dia antes do início das apresentações de sua grande peça. Levará mais de meia hora antes de percebermos um corte no filme – o diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (Gravidade) traz a ilusão de que o filme é feito inteiramente sem cortes por quase toda a duração, enquanto a tensão nos bastidores do espetáculo aumenta até a noite da estreia.

Para sua estreia na Broadway, Riggan escolheu De que Falamos Quando Falamos de Amor, de Raymond Carver, adaptando o conto de forma a dar a si mesmo toda a atenção. Esta é a abordagem da estrela de cinema para o teatro, onde atores de palco verdadeiramente grandes deixam seus colegas de elenco brilharem. Mas Riggan quer se provar um baita ator, cercando-se de outros profissionais – incluindo uma velha amiga respeitada (Naomi Watts, de O Impossível) e a atriz muito mais jovem que ele está transando (Andrea Riseborough, de Oblivion) – apenas na esperança de que elas o façam parecer melhor. E quando um acidente permite que Riggan substitua um ator ruim por Mike (Edward Norton, de O Incrível Hulk), ele aproveita a chance, para dividir os holofotes com um ator de verdade.

Birdman selou a carreira de Riggan (algo que piorou quando ele topou fazer continuações para o filme), então, a peça de Carver deveria se tornar a volta por cima do ator. Ou assim ele imagina, cercando-se de um produtor dissimulado (Zach Galifianakis, Se Beber, Não Case!) e outros bajuladores. Riggan chega ao ponto de se convencer de que tem poderes telecinéticos, usando sua mente para mover objetos e recebendo conselhos na voz de Birdman. Mas sua filha/assistente drogada, Sam (Emma Stone, de Histórias Cruzadas), eviscera sua irrelevância em um discurso que certamente não fará tanto sentido para uma geração que não tenha visto Batman anteriormente.

Esta é talvez uma das virtudes inesperadas da ignorância a que se refere o título completo do filme: Riggan aborda a peça de Carver sem ter toda a bagagem de um ator tradicional da Broadway, mas os espectadores também a abordam com expectativas diferentes. O filme é cheio de referências, conseguindo ser rude e urbano, enquanto fala para diferentes públicos de diferentes níveis intelectuais.

A abordagem de Iñárritu é estonteante em sua complexidade, quase tão exigente para Lubezki filmar quanto Gravidade deve ter sido, de modo que até breves piadas, como quando a câmera espia o baterista responsável pela incansável trilha de jazz do filme (o estreante Antonio Sanchez), teve que ser perfeitamente sincronizada para acontecer. Birdman (ou a Inesperada Virtude da Ignorância) é um grande truque de mágica, projetado para lembrar o quanto os atores dão à sua arte, mesmo que disfarce as demais camadas de trabalho envolvidas no processo de criação.

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