Blonde

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Entre Norma Jeane e Marilyn: O abismo por trás do ícone

Blonde propõe um mergulho radical e desconfortável na figura de Marilyn Monroe, não como mito pop ou estrela de cinema, mas como uma mulher constantemente esmagada pelas engrenagens da fama. O filme assume desde o início que não está interessado em celebrar a iconografia que atravessou décadas, e sim em desmontá-la, transformando a trajetória de Norma Jeane em uma experiência sensorial marcada pela dor, pela exploração e pela solidão.

A narrativa acompanha a protagonista desde a infância instável até o auge de sua carreira, sempre reforçando a ideia de que Marilyn é um personagem criado para sobreviver em um mundo hostil. Norma Jeane surge como alguém à deriva, moldada por traumas precoces, pela ausência paterna e por uma relação profundamente problemática com a mãe. Esse passado não funciona apenas como contexto, mas como uma ferida aberta que atravessa toda a construção dramática do filme.

Ao retratar Hollywood, Blonde opta por uma visão impiedosa e reiterativa. Produtores, diretores e figuras de poder surgem quase sempre como predadores, interessados apenas no corpo, na imagem e na submissão da atriz. A indústria é apresentada como um ciclo de abuso contínuo, no qual a protagonista raramente encontra espaço para autonomia, prazer ou realização artística, reforçando o tom de vitimização que domina o longa.

Essa abordagem extrema, no entanto, cobra seu preço. Ao insistir quase exclusivamente no sofrimento, o filme esvazia a complexidade de Marilyn como artista e personalidade pública. Pouco se vê de seu carisma, de seu talento cômico ou de sua inteligência estratégica diante das câmeras. A ausência desses elementos faz com que o espectador se pergunte não quem ela foi, mas como conseguiu chegar tão longe sendo retratada apenas como alguém quebrada.

A direção aposta em escolhas formais agressivas para intensificar o desconforto. Mudanças constantes de formato de imagem, alternância entre preto e branco e cor, além de enquadramentos invasivos, criam uma experiência fragmentada e instável. Embora essas decisões reforcem o estado psicológico da protagonista, nem sempre encontram um propósito claro, soando por vezes mais como exibicionismo estilístico do que como ferramenta narrativa.

Dentro desse turbilhão, Ana de Armas entrega uma atuação impressionante. Seu trabalho vai além da imitação física, revelando uma Marilyn frágil, confusa e emocionalmente exposta. Mesmo limitada por um roteiro que raramente lhe concede respiro, a atriz consegue imprimir humanidade à personagem, deixando transparecer nuances que o filme insiste em soterrar sob camadas de sofrimento.

Blonde é menos um retrato biográfico e mais uma fantasia sombria sobre os custos da celebridade. Provocador e exaustivo, o filme parece mais interessado em punir seu ícone do que em compreendê-lo plenamente. É uma experiência difícil, que certamente gera debate, mas que também deixa a sensação de que, ao tentar revelar a verdade por trás do mito, acaba criando outro retrato igualmente distorcido.

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