BR 716

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17.11.2016

"BR 716" homenageia o cinema, os anos 60, a boemia carioca, a liberdade de uma juventude que aproveitava o máximo que podia

BR 716 tem esse nome em homenagem ao endereço Barata Ribeiro, 716, Copacabana, onde se passa a maior parte da ação. Nos anos 1960, um pouco antes do golpe de 64, Felipe (Caio Blat), escritor que tarda a escrever, vive em um grande apartamento que seu pai (Daniel Dantas) lhe deu, embora ele deixe claro que não tem mais um tostão. Mesmo assim, o filho não parece se importar e vive em um estado de feliz embriaguez, entre amores e desamores, com o BR 716 servindo como a casa da mãe joana, basicamente.

Todos seus amigos vivem aparecendo no apartamento, em suas incontáveis festas. A história é um mar de festa tamanho que, durante a primeira hora, o cenário é sempre o interior de algum apartamento. Acontece que Felipe não trabalha, pois acredita em ser escritor integralmente, embora seja formado em engenharia. Fica difícil se identificar com o protagonista, que parece viver em um sonho. Mas a direção sugere que realmente estamos dentro de uma história, tanto vivida quanto imaginada. É notável a diferença da narrativa breve lá do início, colorida e mais real, para a em preto e branco, com ângulos experimentais e efêmeros, que mudam constantemente, indo de uma visão partindo do teto para uma em lentes estilo olho de peixe.

Até surgirem na tela as mulheres de sua vida. Primeiro Isabel, amiga meio louca, muito divertida, que tem o costume de interromper o ápice das festas para declamar poesias. Depois sua ex-mulher, interpretada peka atual mulher de Caio Blat na vida real, Maria Ribeiro. Então surge Gilda (Sophie Charlotte), encantadora como sua xará do clássico filme americano (de uns 20 anos antes) encarnada por Rita Hayworth. Felipe se apaixona por Gilda – e nós também. “Não sou sedutora. Eu coloco meu amor à disposição. Se você quiser, você pega.” Resume a moça. O diretor trabalha bem a figura de musa que Gilda representa, focando em seu rosto e sua expressão sempre que pode. E existe Sara (Aleta Valente) também, essa mais ingênua, mas a quem Felipe também dedica seu amor – e tesão.

A trilha sonora é uma delícia à parte. O filme realmente homenageia o cinema, os anos 60, a boemia carioca, a liberdade de uma juventude que aproveitava o máximo que podia. “Você é autor ou personagem?” pergunta Isabel a Felipe, em meio à filmagem, na praia, logo no início. Somos autores ou personagens em nossas histórias? Temos liberdade para sê-lo ambos? Ou essa liberdade ficou perdida lá atrás, nos anos 60, quando nossa escolha nos foi tomada? “Não sei”, vem a resposta de Felipe.

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AUTOR

Marcela Sachini

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